The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Isto não vai passar com duas tretas

Estamos em crise há pouco mais de meia década. Para quem, como eu, já passou os quarenta, é doloroso mas ainda assim parece pouco, uma etapa, uma interrupção que pode ser resolvida. Para um aluno que entra numa faculdade com dezoito anos, é quase metade da vida. Para um que sai agora de um dos novos cursos de Bolonha com dois, três ou mais raramente quatro anos ou mais, a crise engoliu boa parte da experiência formativa. Não conhece mais nada para além da crise, excepto como história, como tradição oral, etc. Mesmo que não aceite esta nova realidade, para ele será como lutar por uma coisa que não pertence ao seu tempo, será uma utopia e não uma tentativa de se recuperar uma época que foi desmantelada.

Ou seja, eu ainda vejo esta crise como algo temporário mas a verdade é que os seus efeitos irreversíveis aconteceram mais rapidamente e mais insidiosamente do que se pensa. Mesmo que o Governo mude e a Austeridade acabe, o ensino é construído por cima de uma base de empreendedorismo, inovação, organiza-se em estágios internos e externos. Uma instituição qualquer só capta dinheiro se (pelo menos) conseguir fazer de conta que leva isto a sério. E a falta de dinheiro também a encoraja a pôr alunos a trabalhar como estagiários para suprir as deficiências orçamentais. Por mais que discorde, acaba por ter que pôr em prática nem que seja parte deste processo.

Daí que a pouca resistência se tenha tornado quotidiana, constante e cansativa. Já me habituei a ver gente a pôr em prática medidas com as quais não concorda por princípio, com um pequeno discurso sublinhando a sua discordância. É como dizer “bom dia” ou “boa tarde”. Uma formalidade, um “antigamente é que era bom”. A sensação geral é de fatalismo. Pouca gente acredita que seja fácil ou mesmo possível melhorar, excepto nesta resistência individual e mínima. E a verdade é que muitos já nem vêem isto como um problema. Para eles, a crise foi resolvida com muitos sacríficios e isto agora já não é a crise mas o novo quotidiano, a nova sociedade. Ainda se tende a ver esta aceitação como uma forma de conformismo ou de apatia, sobretudo quando se fala das gerações mais novas, mas penso que é um erro de classificação – é conservadorismo e não apatia. Ou seja, é uma atitude consciente e vocal.

Um exemplo: tem sido um prazer ler nos últimos dois anos os catálogos das exposições de finalistas de design de comunicação na Fbaul. O deste ano é um objecto denso, organizado à volta de uma reflexão política sobre juventude, um tema escolhido pelos professores e que organiza o trabalho de todas as disciplinas. As propostas são criteriosamente descritas bem como cada projecto seleccionado. Para além disso, há ensaios de reflexão sumarentos e há zonas onde se encenam diálogos. Numa delas entrevistam-se líderes de associações juvenis, juventudes partidárias, etc. Em outra, e é aí que queria chegar, os alunos discutem as propostas que fizeram com os professores. É patente uma perplexidade ou resistência até, para com o tema – porque é político, porque não se parece com as expectativas que o aluno tinha do que é o design, porque não prepara para o mercado de trabalho.

As objecções são enunciadas de um modo articulado e são valorizadas pelos organizadores  da iniciativa como uma contribuição para a discussão, onde se espera que haja várias vozes e pontos de vista, etc. A verdade é que me deprimiu porque me confirmou mais uma vez um conservadorismo activo que não é uma apatia: é vocal e reivindicativo. Reclama aquilo que espera da sociedade em geral e do ensino superior.

Filed under: Crítica

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