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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Doze anos

Faz hoje doze anos que comecei a escrever aqui no blog. Lembro-me que foi num dia da semana, que ainda não tinha internet. Lembro-me que escrevia os textos em casa num iMac vermelho, transparente, os gravava num cd e publicava na escola. Era um processo lento. Mas a decisão foi rápida, demorou um instante. Foi como abandonar uma dieta. Ou cair de um prédio. Demorou um instante mas tudo mudou. Na altura, não pensei assim tanto no assunto. Foi excitante. Será que alguém ia ler? Não, na verdade assumi (com demasiado optimismo, é verdade) que alguém me estava a ler. Claro. Ia colocando cada texto com a certeza que estava a ser lido, mesmo sem ter os comentários ligados, mesmo sem acesso a estatísticas de uso. Não fazia ideia de quem me lia, mas alguém me estava a ler. Como podia ser de outro modo?

Não tinha sequer ideia do tipo de pessoa para quem estava a escrever. Designers? Estudantes de design? Pessoas? Se tinha na cabeça a imagem de alguém, era como uma coisa difusa, uma sobreposição de rostos e lugares genéricos, uma cara que se vê num sonho ou pelo canto do olho. Ou nem sequer isso. Uma abstracção. Via um público, apenas isso, a palavra “público”, que é como um x, como a incógnita numa equação. Um símbolo perfeitamente definido que esconde uma pergunta, uma expectativa.

Na altura, eu diria (convicto) que fazia crítica, agora digo que escrevia em público – o que não faz diferença nenhuma excepto sublinhar que nem sempre fazia recensões. Não tentava avaliar objectos ou eventos. Não escrevia com um objectivo definido, mas ia encontrando esse objectivo à medida que ia escrevendo.

O meu assunto favorito eram os hábitos dos designers, o modo como falavam, vestiam, liam, faziam, os locais que frequentavam, etc. Percebi que o design e os designers eram também abstracções, abreviaturas para coisas que se assumiam como certas mas eram de todos os feitios e tamanhos. Discutiam entre si. Tinham convicções absolutas do que eram e de como eram que não batiam certo. Falavam através de chavões – resolviam problemas, eram inovadores, queriam uma Ordem (como os arquitectos), não gostavam da Comic Sans, etc. Também os designers tinham as bordas esbatidas. Também eram uma incógnita, símbolos perfeitamente definidos que escondem uma pergunta, uma expectativa (doze anos depois, ainda são).

Entretanto comecei a falar mais sobre arte, cultura, política, não porque o design se estivesse esgotado, mas porque as coisas estão ligadas. Não escrevo para circunscrever o design, para determinar o que é ou não design e quem o pode fazer. Talvez o faça para perceber qual a importância pública do design. Qual a diferença que o design faz para quem o faz e quem não o faz. Daí que não limite, nem possa limitar o que escrevo ao design. Se não o vejo como uma coisa definida à partida, não posso definir à partida os limites do que escrevo. Não vejo a cultura, a arte, a política, o design, o cinema, como coisas separadas.

Filed under: Crítica

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