The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Onde

Vila Real. As janelas da casa estão fechadas por causa do calor. A internet anda pastosa. No facebook, polémicas avulsas. O costume em Agosto. A propósito de uma exposição, alguém pergunta ao outro se a viu mesmo. Uma pergunta interessante. O livro de etiqueta aconselha a que não se discuta exposições que não se viu. O que reduz significativamente quem pode discutir arte em Portugal. Para quem vive em Vila Real, por exemplo, mais vale esperar que a arte passe confortavelmente à história e possa finalmente ser discutida. A actualidade cultural, tal como nos aparece pelos jornais, está fora do alcance.

Não é paradoxo nenhum. Arjun Appadurai defendia que enquanto nos centros a modernidade é percebida no tempo (novidade, futuro, etc.) na periferia é percebida como distância em relação ao centro. A cultura que é produzida no centro enquanto actualidade é consumida na periferia enquanto monumentalização da distância, do atraso, etc.

A coisa não se resolve produzindo na periferia, quando tudo o resto (distribuição, recepção, etc.) continua a ser feito no centro. Trazer um artista do centro para uma residência; filmar no interior. Nada disso funciona excepto como glorificação do centro. É isso que se sabe quando se cresceu em sítios como Vila Real.

É preciso não necessariamente uma cultura produzida na periferia mas uma cultura que possa ser consumida na periferia como se isso não fizesse diferença. Interessa a portabilidade: um livro, um filme que se vê pela internet, música. Coisas que não seja preciso ver ao vivo. Ou melhor cujo consumo ao vivo não é exclusivo. Que permitam a toda a gente participar delas como se fosse a primeira vez. Daí que a música de dança, por exemplo, seja uma coisa que se dá bem com as periferias.

Quanto à crítica, aquela que trata a qualidade presencial da cultura como essencial, essa não interessa mesmo nada. Walter Benjamin já o sabia , quando assinalou a Aura, a tal qualidade presencial da arte como uma coisa negativa. Ele acreditava que o cinema ou a fotografia podiam dissolver a aura, eliminando a necessidade, a autoridade, de ir ao local, ao centro. Mas não contava com a reinvenção do cinema como liturgia (é preciso vê-lo em sala, com um projector xpto, qualidade de som, etc.) e a fotografia como índice das experiências, como prova que se esteve lá (não há nada de mais reacionário que uma selfie).

Interessa mais a crítica que trata dos filmes, dos livros e dos sons tal como são consumidos em todo o lado. Por exemplo, de coisas que possam ser vistas no youtube, que possam ser tiradas da Amazon, que possam ser feitas em casa.

Voltando ao exemplo do começo, a crítica de arte quando se assume como a recensão de uma exposição é virtualmente inútil quando transportada para longe da exposição que a motiva. Não se lhe pode responder porque não se viu. Daí que um suplemento cultural lido em Vila Real ou até no Porto acabe por ser uma coisa a meio caminho entre a ficção, a coluna social e a imprensa local de um sítio onde não se vive. Não interessa realmente, excepto aos exilados temporários ou permanentes. Se é levada a sério, é por provincianismo.

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Filed under: Crítica

No Terraço

Escrevo este texto num terracinho com vista para o Marão nos subúrbios de Vila Real. Uso o meu portátil, um mac. Está ligado à internet através de um router também portátil. Enquanto escrevo, vou dando olhadelas ao facebook. Corre uma polémica sobre estágios de arquitectos, que começou nos jornais. Também vou lendo o Público, que prefiro “folhear” em pdf. Ando a ler vários livros ao mesmo tempo. Quando estou em viagem, ganhei o hábito de ler usando a app do Kindle do telemóvel. É prático. Quando estou à espera, que a viagem chegue ao fim, que o autocarro chegue, ponho-me a ler. Nas últimas semanas, tenho lido a biografia de Murray Bookchin – da qual já falei aqui ontem.

Bookchin é conhecido sobretudo pelo seu trabalho pioneiro ligando a ecologia à luta política. Hoje é uma ligação óbvia, mas quando a propôs no final da Segunda Grande Guerra era uma novidade. Mesmo a palavra “Ecologia” era  quase desconhecida.

Quando Bookchin se decidiu por um modelo anarquista de sociedade, fê-lo com a convicção que era a única maneira de impedir uma catástrofe ecológica que iria pôr em causa a sobrevivência humana. Contudo, ao contrário do que é habitual não propunha uma rejeição da tecnologia. Não acreditava que um regresso a modelos arcaicos de produção sustentasse uma sociedade mais livre e justa. A ideia de austeridade levava necessariamente a uma escassez que inevitavelmente castigava os mais pobres, aumentando a desigualdade. Para Bookchin, a igualdade só podia ser sustentada pela abundância, no que chamava a sociedade “pós-escassez”.

Com a automatização, por exemplo, seria possível libertar as pessoas de trabalhos repetitivos, perigosos, mal pagos, desde que se reivindicasse uma distribuição mais justa de rendimentos. Com a miniaturização, seria possível sustentar comunidades mais pequenas. O uso de combustíveis fosseis ou da energia nuclear só se justificava para alimentar cidades cada vez maiores. Numa escala mais modesta, onde a produção fosse local ou distribuída por pequenos ajuntamentos, seria possível usar energias renováveis. Não seria preciso gastar tanto dinheiro a transportar matérias primas, a transmitir a energia à distância, a deslocar os trabalhadores das suas casas para os empregos, etc. O municipalismo libertário de Bookchin assentava nisso.

Ao ler isso, neste terracinho em Vila Real, apercebo-me que sim, que há realmente a possibilidade real de ter a existência descentralizada com que Bookchin sonhava. Em Vila Real há hospitais, há um tribunal, há segurança social e correios. Mas aqui mesmo ao lado há aldeias onde os autocarros só passam (se passam) duas vezes ao dia. A “província” ainda é o sítio de onde se foge. Ou onde se volta de vez em quando como turista. As relações entre campo e cidade – a própria divisão – é de classe. Ganha quem tem a mobilidade suficiente para circular livremente.

A esta clivagem ajuda a cultura que é sobretudo urbana. Numa altura em que se pode aceder a quase tudo valoriza-se o que só pode ser visto ao vivo. Mesmo formatos que se transmitem facilmente pela net como o cinema são relançados como experiências que só se podem viver nas melhores condições, num cinema, com o melhor som. A arte é a dos grandes objectos e das grandes exposições. Qual o sentido de ler em Vila Real uma crítica sobre a importância da exposição x ou y em Lisboa ou Porto? Mais vale ler sobre o que se passa em Nova Iorque ou Londres, é quase o mesmo. Tão distante que podia ser ficção.

Nem sequer acho que a coisa se resolva com itinerâncias ou residências, que mais não fazem do que publicitar uma cultura de centralidade por sítios que não lhe podem responder. Se calhar era melhor coisas que não se limitassem a fazer circular o centro pela periferia. Valorizar por exemplo a portabilidade, a distribuição, o pequeno formato. Fica a sensação que se fala de edições, mas porque não investir em coisas que se possam aceder através do youtube, do bandcamp, e não apenas em cinemas, festivais ou museus. Porque não?

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Vidas Subversivas

Ainda por causa do projecto Páginas Inquietas, ando a ler Ecology or Catastrophe: The Life of Murray Bookchin. Cheguei a Bookchin porque era considerado uma influência pelos Up Against That Wall Motherfucker. A curiosidade aumentou quando soube que também tinha sido uma influência na criação do sistema político usado pelos Curdos do PKK (uma forma de municipalismo, um derivado do anarquismo). Na biografia, também são visíveis outras ligações, a Judith Malina, do Living Theatre, por exemplo. E algumas colisões: com os Situacionistas, por quem a antipatia era evidente mútua era evidente: Bookchin seria tipicamente insultado ao tentar mediar um encontro entre Morea (dos Motherfuckers) e Vaneigem. Finalmente os Situacionistas ingleses seriam expulsos em bloco por se darem com Bookchin, Morea, etc. Uma telenovela que só sublinha o lado autoritário e mais irritante do Situacionismo.

Bookchin considerava o que os Motherfucker faziam como uma forma de teatro de rua:

«Morea thought he could incite people to a revolution with artistic antics, but street theater “rarely makes [people] think, and it can get out of control and undermine serious organizations.” Above all, it could make you lose sight of politics, which had to be the top priority. “However personalized, individuated, or dadaesque may be the attack upon prevailing institutions, a liberatory revolution always poses the question of what social forms will replace existing ones”— that is, what concrete institutions, what forms of freedom. Art cannot answer that question. Serious revolutionary thought must “speak directly to the problems and forms of social management.”»

O percurso de Bookchin começou pelo Comunismo, continuou pelo Trotskismo, passou pelo anarquismo e terminou no seu municipalismo libertário. Abandonou o anarquismo porque considerava que a própria expressão se tinha tornado sinónimo de não-adesão, de estilo de vida, etc. A anarquia como logotipo inconsequente para chatear os papás popularizada pelo punk.

A biografia é um verdadeiro “quem é quem” dos movimentos de intervenção política em Nova Iorque no século XX e do modo como se foram ligando aos do resto do mundo: aparecem os anarquistas espanhóis da Guerra Civil, os Provo, o Maio de 68. Como texto e como documento, cai demasiadas vezes numa apologia acrítica de Bookchin que é sempre apresentado como mais sensato e sábio que quase toda a gente que encontra.

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Linhas fechadas

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Ontem cumpri parcialmente um dos meus mais velhos sonhos – e estou a falar mesmo de sonhos, dos que se têm à noite: percorri a pé a Linha do Corgo entre as antigas estações de Alvações e de Povoação. Já tinha esse sonho no fim da década de oitenta, quando ia e vinha do Porto para Vila Real de comboio, que demorava entre três e quatro horas e portanto era tão lento como as carreiras quando ainda não havia a IP4. Agora, ir até ao Porto de autocarro demora pouco menos de uma hora (medida entre a garagem em Vila Real e o Hospital de S. João). Os comboios acabaram quando o Governo de Passos Coelho subiu ao poder. Meses antes, Passos tinha lutado pela sua manutenção durante a campanha eleitoral. Seis anos depois a linha é um rasto empoeirado que só se distingue dum caminho por causa do cascalho grosso onde assentavam as travessas misturado na terra batida, pelas estações e apeadeiros emparedados e por algum parafuso ou rebite enfurrajado que ainda se encontra no meio da terra. Continua a ser uma paisagem incrível, surpreendentemente variada, mesmo no espaço dos quatro quilómetros que fizemos: vinha, socalcos antigos de antes da praga da Filoxera, sobreiros, oliveiras, floresta nativa que ia reaparecendo em troços sem cultivo. Cruzaram-se por nós mais três turistas, em sentido contrário, descendente, um casal estrangeiro mais velho e uma ciclista. É provável que tivessem saído de Vila Real ao começo do dia e fossem até à Régua. Não é mau a linha estar aberta aos caminhantes e ciclistas mas imagino o que seria se o velho comboio ainda funcionasse.

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

História Universal do: Estágio

O "Estágio"
O Negócio Perfeito
Maus Empregos
Trabalho a Sério
Design & Desilusão
"Fatalismo ou quê?"
Liberal, irreal, social
Conformismo
Juventude em Marcha
A Eterna Juventude
Indústrias Familiares
Papá, De Onde Vêm os Designers?
Geração Espontânea
O Parlamento das Cantigas
Soluções...

História Universal dos: Zombies

Zombies Capitalistas do Espaço Sideral
Vampiros, Zombies, Classe Média

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