The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

No Terraço

Escrevo este texto num terracinho com vista para o Marão nos subúrbios de Vila Real. Uso o meu portátil, um mac. Está ligado à internet através de um router também portátil. Enquanto escrevo, vou dando olhadelas ao facebook. Corre uma polémica sobre estágios de arquitectos, que começou nos jornais. Também vou lendo o Público, que prefiro “folhear” em pdf. Ando a ler vários livros ao mesmo tempo. Quando estou em viagem, ganhei o hábito de ler usando a app do Kindle do telemóvel. É prático. Quando estou à espera, que a viagem chegue ao fim, que o autocarro chegue, ponho-me a ler. Nas últimas semanas, tenho lido a biografia de Murray Bookchin – da qual já falei aqui ontem.

Bookchin é conhecido sobretudo pelo seu trabalho pioneiro ligando a ecologia à luta política. Hoje é uma ligação óbvia, mas quando a propôs no final da Segunda Grande Guerra era uma novidade. Mesmo a palavra “Ecologia” era  quase desconhecida.

Quando Bookchin se decidiu por um modelo anarquista de sociedade, fê-lo com a convicção que era a única maneira de impedir uma catástrofe ecológica que iria pôr em causa a sobrevivência humana. Contudo, ao contrário do que é habitual não propunha uma rejeição da tecnologia. Não acreditava que um regresso a modelos arcaicos de produção sustentasse uma sociedade mais livre e justa. A ideia de austeridade levava necessariamente a uma escassez que inevitavelmente castigava os mais pobres, aumentando a desigualdade. Para Bookchin, a igualdade só podia ser sustentada pela abundância, no que chamava a sociedade “pós-escassez”.

Com a automatização, por exemplo, seria possível libertar as pessoas de trabalhos repetitivos, perigosos, mal pagos, desde que se reivindicasse uma distribuição mais justa de rendimentos. Com a miniaturização, seria possível sustentar comunidades mais pequenas. O uso de combustíveis fosseis ou da energia nuclear só se justificava para alimentar cidades cada vez maiores. Numa escala mais modesta, onde a produção fosse local ou distribuída por pequenos ajuntamentos, seria possível usar energias renováveis. Não seria preciso gastar tanto dinheiro a transportar matérias primas, a transmitir a energia à distância, a deslocar os trabalhadores das suas casas para os empregos, etc. O municipalismo libertário de Bookchin assentava nisso.

Ao ler isso, neste terracinho em Vila Real, apercebo-me que sim, que há realmente a possibilidade real de ter a existência descentralizada com que Bookchin sonhava. Em Vila Real há hospitais, há um tribunal, há segurança social e correios. Mas aqui mesmo ao lado há aldeias onde os autocarros só passam (se passam) duas vezes ao dia. A “província” ainda é o sítio de onde se foge. Ou onde se volta de vez em quando como turista. As relações entre campo e cidade – a própria divisão – é de classe. Ganha quem tem a mobilidade suficiente para circular livremente.

A esta clivagem ajuda a cultura que é sobretudo urbana. Numa altura em que se pode aceder a quase tudo valoriza-se o que só pode ser visto ao vivo. Mesmo formatos que se transmitem facilmente pela net como o cinema são relançados como experiências que só se podem viver nas melhores condições, num cinema, com o melhor som. A arte é a dos grandes objectos e das grandes exposições. Qual o sentido de ler em Vila Real uma crítica sobre a importância da exposição x ou y em Lisboa ou Porto? Mais vale ler sobre o que se passa em Nova Iorque ou Londres, é quase o mesmo. Tão distante que podia ser ficção.

Nem sequer acho que a coisa se resolva com itinerâncias ou residências, que mais não fazem do que publicitar uma cultura de centralidade por sítios que não lhe podem responder. Se calhar era melhor coisas que não se limitassem a fazer circular o centro pela periferia. Valorizar por exemplo a portabilidade, a distribuição, o pequeno formato. Fica a sensação que se fala de edições, mas porque não investir em coisas que se possam aceder através do youtube, do bandcamp, e não apenas em cinemas, festivais ou museus. Porque não?

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Filed under: Crítica

One Response

  1. Não sei!
    Um terraço por sobre um pedaço de Trás os Montes… Eis o centro do mundo! Por que razão a distância é maior de Lisboa ao meu terraço? Ou será ao invés – Lisboa é que fica lá longe.
    Não sei!
    Um melro no silvado, o cheiro a força e a estrume, o feno ao sol, uma velha, minha mãe, a cantarolar modas do tempo de D. Dinis, o cumprimento de quem passa – Deus nos dê bom dia! – resumem a centralidade a partir de dentro. O espetáculo do mundo sem espetadores. Aqui somos todos atores, sem cartaz ou vencimento, sem razão estranha a existir essencialmente.
    Youtube? Bandcamp?
    Não sei!
    Não nos cortem as silvas. Os melros gostam de amoras. Eu gosto dos melros. E para lá disto, pouco sei. Prezo a paz de por dentro, de por fora, sem tempo, sem hora! Olarila!
    Não sei!

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