The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Em Directo da Praça da Alimentação

Há um género narrativo que eu respeito muito — em parte por ser quase sempre mal compreendido. Assume-se que é apenas um truque. Ou que é apenas comédia, sátira. Mas sinto-o sempre como algo mais subtil e duro do que isso. É ou deveria ser talvez um género como o Western, o filme de Gangsters ou a Space Opera. Falo de histórias sobre pessoas que trabalham em parques temáticos, feiras medievais, disneylandias.

O meu exemplo favorito na literatura é Pastoralia, de George Saunders, com um protagonista que trabalha num diorama vivo a fazer de homem das cavernas. É cómico, brutal, mas nem tudo o que é cómico é necessariamente uma comédia. Há mais exemplos: Choke, de Chuck Palahniuk; a webseriesAsk a Slave, baseada na experiência de uma comediante negra a trabalhar como actriz em reconstituições históricas. O efeito mais simples e directo que se pode tirar da situação é o contraste entre a História (que é uma coisa épica) e um emprego habitualmente precário e humilhante.

Pensar-se-á que este é um género tipicamente americano. A América vê-se a si mesma como o país do parque temático, onde tudo é um pequeno museu, recriação, versão de outra coisa qualquer. Mas o género tende a aparecer um pouco por todo o lado. Um bom filme sobre gente a levar vidas duras em parques temáticos é O Mundo, de Jia Zhangke, passado num parque temático de Beijing que reproduz em escala pequena monumentos e paisagens do mundo inteiro. É uma narrativa melancólica sobre existências miseráveis, em cenários absurdos. Imaginem que o Neo Realismo italiano não tinha como cenário cidades destruídas pela guerra, fábricas e bairros operários mas parques temáticos onde a Torre Eiffel está apenas a uma curva do caminho de Nova Iorque. Já agora: morre toda a gente no fim, de modo triste e repentino.

Eu respeito o género porque põe em causa uma série de ideias feitas sobre o que é o realismo, sobre o que é autenticidade. E — claro — porque alguns sítios em Portugal se estão a transformar em parques temáticos, onde a distinção entre habitante, figurante e funcionário hoteleiro se esbate. Daí que sinta a falta de ficção que lide com isso. Não ao modo dos novos Pátios das Cantigas e Canções de Lisboa mas que consiga ver esta nova vida com um mínimo de rigor. Preciso de uma modalidade de realismo que consiga descrever o sítio onde vivo.

Há uma necessidade básica de histórias sobre o sítio onde se vive e como se vive. Por várias razões, em certos sítios isso é mais difícil. Durante o Estado Novo, por exemplo, aquilo que podia ser contado sobre o país era fortemente condicionado. Contar histórias alternativas era um acto de resistência. Mesmo agora boa parte da nossa ficção é importada, o que não é um problema (o mundo é sempre maior e mais rico que uma das suas partes) mas coloca sempre a interrogação de como falar sobre estar “aqui”. É sempre possível usar o que nos chega como metáfora, mas o que fazer quando se vive dentro de uma metáfora? Que tipo de realismo nos é possível quando se vive dentro de um parque temático?

David Foster Wallace escreveu em 1993 um ensaio sobre a relação entre ficção literária americana e televisão (“Et Unibus Pluram: Television and U.S.Fiction”) onde defendia que o Pós Modernismo literário (mistura de géneros, pastiches, histórias dentro de histórias, realismo mágico, etc.) era uma forma de realismo para quem passava a vida não só passava a vida a ver televisão como construía a sua identidade pela televisão. Não se podia pensar em ser realista, deixando de fora a televisão. Era eliminar o modo como as pessoas se viam a si próprias, como viam o mundo em geral, as piadas que repetiam, os estereótipos que, de modo mais ou menos irónico, encarnavam.

Wallace insistia que: “If we want to know what American normality is — what Americans want to regard as normal — we can trust television. For television’s whole raison is reflecting what people want to see. It’s a Mirror. Not the Stendhalian mirror reflecting the blue sky and mud puddle. More like the overlit bathroom mirror before which the teenager monitors his biceps and determines his better profile.” É uma descrição mais apropriada, literal até, do facebook ou do instagram que da televisão.

Em 1993, as pessoas construíam as suas imagens a partir do que viam na televisão, e a televisão produzia e distribuía essas imagens tentando adivinhar o que as pessoas queriam. Era um ciclo, um espelho apontado a milhares de espelhos. Era um processo assimétrico na sua escala que concentrava o poder de produzir imagens numas poucas pessoas, enquanto assumia a relativa passividade e impotência de quem as via.

Com a internet, qualquer um pode produzir as suas próprias imagens. Aliás, é esperado que as produza. Se há trinta anos só um grupo relativamente restrito de pessoas podia ter uma identidade pública que excedesse o alcance do grupo de pessoas que conhecia pessoalmente, neste momento espera-se que toda a gente o faça, num grau menor ou maior. Um adolescente avulso, mediano, com uma conta do facebook ou um canal no Youtube pode ter tanto ou mais público que um colunista de jornal inglês por volta de 1800. Ou um empregado de escritório. Ou um arquitecto. Ou quem quer que seja.

Trocou-se meios distantes, indirectos, por uma produção, reprodução e partilha de imagens permanente, que não é superficial mas identitária. Determina o que se é em público, o nosso género, a nossa cor política, etc. Já não é a resposta a imagens construídas centralmente e transmitidas em massa mas um processo muito mais distribuído e aguerrido, onde se pode responder às imagens que nos são atiradas dos centros de poder com outras. Dizer que é distribuído não significa que seja justo, igualitário, etc. As pressões, as censuras e os abusos são constantes. Ou seja, para representar de modo realista uma vida, não se pode deixar de fora os facebooks, os instagrams, os sms, etc. É o oposto do aforismo de Debord: Tudo o que era apenas uma imagem é agora directamente vivido.

Muita da crítica moderna das imagens — Debord, por exemplo — perdeu ainda mais a sua utilidade. Os narradores pós-modernos perceberam que o desejo de ir além das imagens, de encontrar uma verdade, uma autenticidade, que elas nos ocultam se estava a tornar irrelevante. A desconfiança moral, platónica,da ficção moderna em relação às imagens, a crença que mentem, que escondem a realidade, esquece que a realidade inclui as imagens. A rejeição liminar da imagem não permite uma crítica eficaz da imagem. Assume que o espectador é essencialmente estúpido apenas pelo facto de ser espectador. Isso nem sequer era verdade quando se concebia o espectador como um receptor passivo — as pessoas respondem àquilo que vêem. Sempre. Mas agora, essa resposta tornou-se visível e integral às vidas de cada um.

Se aceitarmos que contar histórias e produzir imagens é inevitável, o verdadeiro nunca foi mais do que um momento do falso, não é um desenvolvimento recente, como insistiam os situacionistas. Quando se vive dentro de um parque temático, uma ficção que não o reconheça, que nos mostre o mundo sem isso, vai ser sempre insincera.

Filed under: Crítica

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Comentários Recentes

Mário Moura em Occidente, 1889
Augusto José em Occidente, 1889
Francisco Choupina em No Terraço
Marco em Onde
Candeias em Boletins

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: