The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Subterrâneo

Sonhei certa vez que caminhava por uma estrada de terra cavada numa paisagem plana, pelo meio de um bosque de árvores pequenas e torcidas que não eram nem pinheiros nem sobreiros. Ao olhar para as lâminas de xisto esboroado do talude raso que ladeava a estrada, reparei que na verdade eram livros, atados em maços com cordel como aqueles restos de bibliotecas e arquivos que se encontram em aterros. Toda aquela paisagem, aquelas árvores, aquela vegetação rasteira, tinham sido plantados sobre livros, uma quantidade impossível de livros.

Lembrei-me desse sonho a pensar no que vou ouvindo nos encontros que tenho tido relacionados com a ephemera. O que já ouvi do próprio Pacheco Pereira, da Manuela, do Joao Lafuente, dos antigos resistentes do Luar, fazem-me pensar que a história das lutas de antes do 25 de Abril nos chegam de um modo tão seco, tão resumido, nos livros de História, mesmo os especializados. Ouvir estas pessoas, ver os seus objectos, recupera por momentos uma memória mais texturada, mais viva, que mesmo a melhor História não consegue descrever inteiramente.

Diz-se que é um período mitificado. Mas na verdade é ao contrário. O pouco mito que há desautoriza toda esta época. Silencia-a. É condescendente. Mas há uma grande história oral que brota sempre que estas pessoas se encontram, mas é muito difícil ter um acesso aos pormenores, à textura, àquilo a que mesmo os protagonistas não ligam muito. Coisas efémeras, que é um grande nome.

Depois destas ocasiões, cai-me em cima sempre como aquelas pessoas, aquele professor universitário que já assaltou bancos, aqueles historiadores que já tomaram parte de uma revolução, aquele senhor que comenta na televisão e que já atravessou fronteiras clandestinamente com livros às costas, como não é possível saber o passado, como ele é tão bem disfarçado debaixo do presente, como se os livros debaixo daquela paisagem inóspita tivessem por sua vez dentro deles um fogo permanente. É difícil voltar a olhar para um velhote no autocarro sem pensar que ele passou por essa mesma história extrema, que desempenhou um papel qualquer, por pequeno que fosse. Resistente? Retornado? Bufo? Pide? Funcionário? Nem interessa, apenas que logo abaixo do dia-a-dia, do suposto “Fim da História”, há esse braseiro.

Nota: Este texto foi publicado previamente no facebook.

Filed under: Crítica

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