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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Novo Populismo em Portugal

Apareceu um artigo bastante míope no Público defendendo que o populismo em Portugal não tem representação política. Vai tendo. O problema é que se assume que o populismo tem determinadas características que não são essenciais mais acessórias, nomeadamente a xenofobia, a promessa de mundos e fundos ou a existência de políticos que se apresentam como estando fora e contra o sistema político, os partidos, etc. Há mais fobias para além da xenofobia, há modos de política populista que passam pela promessa de empobrecimento selectivo de partes da população, há modos de prometer uma política fora da política que não passam por movimentos de rua.

O PàF neste momento percebeu que não irá alcançar facilmente a maioria absoluta pelos meios tradicionais. Ser-lhe-á cada vez mais difícil coligar-se com o PS, que há anos anda a associar ao despesismo, à irresponsabilidade. Assim, desde que perdeu as eleições legislativas tem produzido e encorajado um discurso extremo anti-esquerda que pinta toda e qualquer medida do actual governo como se fosse uma invasão soviética.

A estratégia, que devia ser evidente, é captar algum do voto abstencionista/populista de direita, gente que não vota porque os partidos são todos iguais e os políticos são os ladrões mas que até pode ir pôr o papelito na urna para afastar a esquerda “estalinista” do poder.

Acresce a isto também uma cobardia evidente em assumir que voltando ao poder, voltará a austeridade. Portanto na impossibilidade de apresentar o seu próprio programa dedica-se a demonizar o do governo do modo mais irresponsável. A diabolização que refiro é literal – o próprio Passos Coelho avisa que vem aí o diabo. E não é um acto retórico isolado. É reforçado por outdoors a apresentar o governo e os seus aliados como se fossem sovietes. Não se trata de um fenómeno reduzido às redes sociais mas estratégico.

Lembro-me perfeitamente das manifestações de direita que houve quando o PàF perdeu, com bandeiras portuguesas e cachecóis da selecção e uma ou outra bandeira monárquica a exigir a Cavaco um governo de gestão. E lembro-me do anti-esquerdismo primário evidente nas entrevistas aos seus organizadores. Lembro-me do movimento amarelo dos colégios privados e dos slogans e imagens a ele associado.

Antes disto tudo, a austeridade assente num discurso de diabolização de parte da população e do sistema político – “os priviligiados que vivem à conta dos nossos impostos” – já tinha características populistas. Não assentava numa promessa de mundos e fundos mas prometia a economia como uma espécie de bypass do sistema político tido como corrupto. Neste discurso, a Europa não é vista como um problema (o que aconteceu no Brexit) mas um aliado exterior contra os supostos maus hábitos nacionais.

Ou seja, temos um populismo que não é marcadamente anti-imigração mas sobretudo classista; anti-esquerda e até anti-direita mas que acaba por embarcar no modelo do empreendedorismo que o acaba por encaixar na nova direita neo-liberal; que vê a Europa de Merkel como uma oportunidade. E que se naturalizou ao ponto de nem se dar conta da sua existência.

Filed under: Crítica

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