The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Facebook

Quando vim para o facebook faz uns cinco anos percebi que, por comparação com os blogs, isto era bastante mais fechado. Entrava-se por convite e eram comuns os grupos fechados dentro de um grupo já de si fechado. A isso juntavam-se os algoritmos que escolhiam as notícias que podiam agradar. Agora, com a eleição do Trump, há uma rejeição extrema disto tudo. Denuncia-se  as pessoas que vivem dentro da sua bolha do facebook. Que, se não fosse por isso, saberiam que Trump podia ganhar e mobilizar-se-iam.

É uma suposição optimista. As pessoas sabiam que Trump podia ganhar mas apesar de tudo não se mobilizaram. Ou até se mobilizaram no sentido de o deixar ganhar. Por despeito. Ou para agitar as águas. O problema não é o twitter, o facebook ou a internet mas a fragmentação do voto à esquerda. Para muitos dos que escolheram Bernie, Hillary era pior que Trump. Até Obama era colocado no mesmo saco. Se quiserem, o problema foi mais que, para quase toda a gente nesta eleição, todas as opções eram igualmente más, o que se traduziu num voto populista contra o sistema. Enquanto à direita havia um candidato para votar, à esquerda isso traduziu-se em abstenção. O populismo é o mesmo; o efeito de superfície é distinto.

Não se vota em Trump por falta de informação credível. Vota-se nele apesar da informação credível e contra a informação credível. Daí que o apelo a que Zuckerberg censure as falsas notícias no facebook seja essencialmente um apelo encapotado a que se corte o acesso das bases da direita ao facebook. Não vai dar certo e, se der, vai colocar muito directamente o problema da neutralidade da internet. Será uma censura que muito facilmente se voltará contra a própria esquerda. Ainda agora é comum considerar-se como fantasias qualquer alternativa ao discurso económico neoliberal – e isto até em notícias, não apenas nas colunas de opinião. Porque se deve censurar o criacionismo e não outras crenças religiosas?

Não é o facebook que isola as pessoas, elas fazem-no muito bem sozinhas – trocadilho. Fazem-no artesanalmente. A tendência para se organizarem em grupos, com crenças próprias, vestuário seu, hábitos únicos, um discurso incompreensível para quem já não o conheça, é o que as pessoas fazem por natureza. A ideia que o facebook é o culpado por isso é mais outro exemplo de uma fé inflacionada nas virtudes da tecnologia.

E é também – talvez –  mais outro exemplo da desconfiança extrema que se tem pela ideia de colectivo. Ou pelo menos pela ideia de colectivo que não seja constituído por gente que se assume acima de tudo e contra tudo como um indivíduo. Fala-se de redes sociais mas estas são construídas para ampliar a ideia do indivíduo contra a de colectivo. A ideia de um facebook neutro é a sua redução a um conjunto de indivíduos.

Filed under: Crítica

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