The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Papelada

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É cada vez mais comum ouvir arquitectos a carpir a burocratização da arquitectura – a vida de um arquitecto tornou-se numa longa resma de formulários, licenciamentos, dossiês de aprovação, um longo etc. Sentem-no (e quem não sentiria isso) como um afastamento do que consideram ser a arquitectura “a sério” – que seria fazer casas, projectar, edificar.

A culpa é, até certo ponto, deles. A sua ambição como classe cumpriu-se: só um arquitecto pode exercer legalmente a arquitectura. Infelizmente, a Arquitectura, assim com A grande, tal como eles a definem, ultrapassa-os. Diz  respeito a toda a gente: inclui não apenas tudo o que está a ser projectado e edificado mas tudo o que já foi construído, tudo o que se sonhou construir, tudo o que se construiu apenas como figura de estilo ou especulação diagramática, e por aí adiante. É uma imensa responsabilidade. Desta, a parte mais chata é a responsabilidade legal. Tudo o que é construído deve passar por um arquitecto. Tudo o antigamente se fazia “artesanalmente” – casas, palheiros, armazéns, mudar uma parede de sitio, o que quer que seja – precisa de ser assinado por um arquitecto. Portanto é natural que a vida da maioria dos arquitectos se tenha tornado na de um notário. Têm toda a razão ao dizer que a Arquitectura é uma coisa inerente à condição humana, um direito. O problema é que se instítuiram como os únicos guardiães legais e científicos dele. Daí toda a papelada.

O caso é semelhante aos artistas plásticos ou aos designers, quando também se instituem como únicos produtores legítimos de coisas que dizem respeito a toda a gente. Muitos designers tentam também inscrever isso na lei. Tal como alguns artistas menos avisados também tentam de vez em quando criar uma Ordem dos Artistas. Felizmente nunca deu certo.

Seria o equivalente a legislar uma questão de gosto. Há quem acredite que a arquitectura, o design e até a arte estão acima do gosto. Que, quando são bem feitos, são coisas universais e incontestáveis, contudo não é difícil perceber que, por melhor que seja um artista, um designer ou um arquitecto, haverá sempre muita gente com a opinião perfeitamente legítima que não é assim tão bom.

Mas, voltando aos arquitectos: têm uma imensa melancolia pela arquitectura que – sentem – deviam estar a fazer. A última trienal de arquitectura de Lisboa, por exemplo, num dos seus textos introdutórios refere esse sufoco burocrático e tenta encenar um regresso ao que considera serem os verdadeiros actos e espaços da arquitectura: a obra, o edifício, o gabinete, regressa-se até ao tijolo, ao cimento, às vigas de aço dos arranha-céus. É um fetichismo por algo que já não existe, sobretudo aqui por Portugal onde boa parte dos arquitectos se dedicam à requalificação, um eufemismo para reorganizar o interior de fachadas de acordo com as tendências do mercado imobiliário.

É natural também que a arquitectura portuguesa se dedique a deificar o Arquitecto com A grande, os Sizas e os Souto Mouras, que se tornaram em argumentos vivos de autoridade, que se conseguem elevar da interminável discussão onde a maioria dos arquitectos sentem estar atolados. É uma fantasia, claro. O sonho de alcançar a incontestabilidade de um Pritzker é o sonho de ter uma arquitectura que já não responde a nada que não a ela mesma – onde uma barragem deixa de ser uma catástrofe ecológica e social para encontrar um destino superior em ser projectada por Souto Moura.

O tema desta Trienal é A Forma da Forma, o que deixa uma primeira impressão de Formalismo, uma doutrina que, na arte ou na literatura, coloca a sua ênfase no modo como as formas evoluem, se organizam, como habitam cada época ou contexto, obedecendo apenas às suas próprias regras. Implica quase sempre uma defesa da arte pela arte, de uma expressão resumida ao que se considera ser o mínimo essencial de uma dada disciplina, e portanto um certo fechamento, um afastamento da política, do social. Curiosamente em Inglês diz-se The Form of Form. E, olhando para a sua identidade gráfica, com aqueles grandes Ós quadrados tornados em superfícies onde se pode inscrever o que se quiser (um pouco como num impresso), percebe-se que Form também quer dizer Formulário. A papelada acaba sempre por voltar. É talvez um regresso do reprimido.

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Filed under: Crítica

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