The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

bildungsroman

Nasci pouco mais de dois anos antes do 25 de Abril, as minhas primeiras memórias incluem cartazes e tinta nas paredes de Lisboa, foices e martelos, suásticas a que eu chamava aranhas. Os meus pais eram ecologistas profissionais, trabalhavam no Serviço Nacional de Parques Reservas e Património Paisagístico, cujo logotipo era uma folha de carvalho. Para além disso, não falavam quase nada de política. A família da minha mãe era de professores primários, pobres e nómadas. A família do lado do meu pai era conservadora, de direita. Numa mesa de entrada em casa da minha tia avó, havia a reprodução do retrato pintado de um homem de óculos, sentado numa cadeira à frente de uma cortina vermelha. Sempre que passava por ele, eu fazia um ziguezague com a cabeça para verificar que sim, os olhos nos seguiam. Fui começando a assumir, já na adolescência, que se tratava de Salazar. Até aí era uma coisa que não tinha nome; não se falava de política, e sobretudo daquele tipo de política, à frente das crianças. Muitos anos depois fiz uma banda desenhada, já das minhas últimas, já no final da década de noventa, onde aparecia um Salazar de óculos a balançar numa cadeira. Era um erro, que a abstracção do meu desenho disfarçava: aquele retrato sem nome na sala de entrada era de Marcelo Caetano. Do mesmo modo, só percebi a diferença entre as foices e martelos quando já andava na primária, graças a um filme do Jerry Lewis onde ele fazia (entre muitos outros) o papel atarantado do capitão de um barco atingido por um torpedo que se tinha cravado sem explodir na casa das máquinas. Enquanto desativava o aparelho, Jerry encontrou lá dentro uma bandeira nazi dobrada que lhe indicou quem era o atacante. E que eu descrevi entusiasmado ao meu pai como sendo “os Russos”. Disse-me pacientemente que não, que eram os “alemães” e mais concretamente os Nazis. Com o tempo e à medida que me fui graduando para entretenimento mais adulto fui percebendo a diferença, que era sobretudo uma de actualidade: os nazis eram uma coisa do passado e os russos faziam parte daquele medo atómico constante a que se chamava Guerra Fria. Passei rapidamente de uma consciência geral de que podia morrer (foi num documentário sobre múmias egípcias) para uma consciência geral de que toda a gente do mundo podia morrer de um momento para o outro. Sabia-se isso pela televisão, por filmes como The Day After (que os meus pais não me deixaram ver), por contos pós-apocalípticos de ficção científica, por cogumelos atómicos um pouco por todo o lado. Era, em retrospectiva, uma consciência baça onde se ia aceitando e percebendo lentamente coisas que não nos eram ditas ou mostradas. Pela diferença entre os meus livros de escola e os dos meus pais que eu encontrava em caixotes, onde apareciam nomes e regiões que já não faziam parte de Portugal. Pelas histórias da infância do meu pai em Lourenço Marques, contada através de palavras e objectos que não tinham referente no meu quotidiano. As cubatas. As mamoas. As papaias. O marfim. Era abstracto e fascinante. Com a adolescência fui-me interessando mais pela história e pela política. Lembro-me do Adeus Português, de João Botelho, com as suas duas histórias entrelaçadas do presente a cores e do passado africano a preto e branco. Tentava usar essa história embaciada que ia apanhando mais do que aprendendo como argumento de banda desenhada, usava o que ia lendo nos livros de história que nos davam na escola e que pela sua brevidade, não tinham outro remédio senão ser vagos. Usava o que apanhava nos jornais que comecei a ler no final da década de oitenta (os meus pais não os compravam; limitavam-se à televisão e à assinatura da revista Time). Só bastante mais tarde, já depois do curso de design, é que comecei a pensar em política como uma coisa activa. A minha aprendizagem coincidiu com os meus primeiros empregos, a descoberta dos estágios, dos recibos verdes, e sobretudo com a escrita. Mas mesmo nessa altura, ainda tinha mais conhecimento da política internacional que a do meu próprio país. Comecei a ler sistematicamente a história da primeira república e do Estado Novo neste Verão. O catalisador foi a série A Pide Antes da Pide. Fiquei encadeado pelas vagas de pormenores, de brutalidades, de nomes colectivos que se esfumaram há muito, a Legião Vermelha, a Formiga Branca, A Revolta dos Fifis, etc. Já não leio através das chamadas Histórias Concisas, mas histórias especializadas, focando-se por vezes num só detalhe ou pessoa. Coisas que se resumem através de um chavão numa conversa de café, mas ganham um detalhe tão extremo que as puxa para outra direcção, como um ser a duas dimensões a habitar o seu mundinho plano e que é de repente puxado para a terceira. Há um limite para o que se pode aprender de ouvido. Não nasci de esquerda ou de direita – ninguém nasce. Talvez fosse melhor dizer que não nasci numa família declaradamente de esquerda ou de direita. Fui criado numa posição e num lugar onde a consciência política não era de todo evidente. E penso muitas vezes que podia nem me ter interessado pelo assunto. Podia ter-me tornado num apolítico abstencionista, que acha os políticos todos iguais e que o sistema é o problema, podia ser de esquerda ou de direita, ou uma mistura dos dois sem o saber sequer, como habitualmente é o caso. Podia-me ter deixado fascinar pela história mas num outro sentido, por tudo o que foi silenciado, por tudo o que foi calado, e ver isso como uma espécie de tragédia. Sítios onde a minha família ia, e que já não existem. Coisas que se dizia e já não se pode dizer. Coisas com o seu exotismo, a sua poesia, a sua estranheza surreal mas que já não se devem dizer em voz alta excepto como documento, como testemunho. Em casa dos meus tios-avós chamava-se “cabeça de preto” à vassoura alta e com as cerdas em esfera com que se limpava os tectos. O papagaio verde de bico adunco era o “Jacó” – que só muito tempo depois percebi queria dizer “Jacob”. Podia lamentar que o problema de não poder aceder a esse passado era culpa de uma espécie de censura, de uma ditadura dos costumes que me impedia de ter um acesso pleno ao meu passado. E tremo com isso, porque estaria a milímetros de votar num Trump qualquer, porque apreciaria a franqueza da linguagem, mesmo que não a brutalidade do seu conteúdo. Por tudo isto, acho que o passado, por pior que seja,  não deve ser censurado. Não acho que objectos como o Tintin em África, ou o Birth of a Nation, ou o Triunfo da Vontade, ou os livros do António Ferro, devam ser reservados ao investigador especializado, devem ser mostrados, discutidos e comentados criticamente o mais cedo possível. É um risco, mas penso que necessário. Caso contrário, o racismo, xenofobia, homofobia, e até a própria política reduzir-se-ão a termos abstractos, sem referente, por pessoas que não são confrontados directa e quotidianamente com isso. A eleição de Trump e o Brexit demonstraram que construir uma cúpula de silêncio à volta da discriminação não é o mesmo que preveni-la. Quando muito só dá uma sensação de opressão a uma grande fatia da população que irá atrás de quem simplesmente prometa acabar com ela. Alguém que não tenha medo de dizer em voz alta o que todos pensam. O passado, por pior que seja, não deve ser censurado, deve ser conhecido e revelado. O risco é, como se viu com estas últimas eleições americanas, que o regresso do racismo, da xenofobia, do machismo, seja visto como o levantamento de uma cortina, uma libertação, como um alívio.

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Filed under: Crítica

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