The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Apagar fogos faz-se com prevenção e planeamento, mesmo a nível metafórico

Um dos trabalhos que os meus alunos do quarto e último ano fazem é paginar um livro. Tem apenas três contos do escritor argentino Jorge Luís Borges, escolhidos pela sua qualidade literária e pelas dificuldades que impõem ao designer. Incluem notas de rodapé, diagramas, listas, citações, referências bibliográficas, epígrafes, etc. Este ano, na entrega desse trabalho, pedi aos alunos que descrevessem a maior dificuldade que tiveram ao concretizá-lo. Uma aluna respondeu que, sempre que mudava qualquer coisa, tudo o resto precisava de mudar, originando novas mudanças que por sua vez afectavam o todo.

Era isso o que se costumava chamar “design” nos velhos tempos. Este era um exercício, mais do que aquilo que se chama brief, trabalhos “realistas” com cliente, contexto, etc., mas tentava aproximar-se a essa ideia de ter um projecto total que se ia afinando até que as suas partes – formas, materiais, necessidades, etc. – se equilibrassem. Tentava ser a resolução de problemas, no sentido de um puzzle sistémico. Já não se faz muito.

No design, continua-se a falar de “resolver problemas”, é difícil mudar de chavões, mas agora isso quer dizer sobretudo “apagar fogos”. Resolvem-se as coisas não com um sentido de sistema, mas uma coisa de cada vez, à medida que surgem os imprevistos. Aliás, tem-se glamorizado cada vez mais o desenrascanço dentro do design, e são duas coisas que pouco têm que ver uma com a outra. Design é projectar, desenrascar não. É uma desistência, um vazio do design.

A confusão entre desenrascanço e design, com o primeiro a entranhar-se de tal maneira que já nem se vê o segundo, é uma consequência por um lado da informatização e por outro da institucionalização quase total de certos modos de “resolver” um trabalho – certos formatos. Neste momento, o design gráfico limita-se cada vez mais a resolver o problema de como dar um ar empresarial ou empreendedor a todo o tipo de coisas. Desde pessoas a causas sociais, tudo se resolve do mesmo modo. Por outro lado ainda, vem da precariedade da prática e do ensino do design, que fazem dele o exercício de um expediente que não termina, e que isola a maioria dos praticantes da possibilidade de participar sequer em decisões de outro modo que não seja ir passando o balde.

Daí que os encontros de design se pareçam cada vez mais com shows evangélicos, onde a sucessão mais banal de produtos, de soluções, de dicas de auto-ajuda, é debitada de auricular na orelha, humor desidratado e ambições de mudar o mundo, com soluções que tirando um pormenor olvidável qualquer se parecem com tudo o que foi apresentado antes e vai ser apresentado depois. O design tornou-se numa formalidade.

O ensino tem culpa porque tem insistido cada vez mais no “realismo”, na ideia de que a escola deve simular o mais possível o mercado de trabalho, que o aluno não fica bem preparado se, enquanto aprender, não estiver a ser confrontado com imprevistos, com mau equipamento, prazos irrealistas, exigências arbitrárias, etc. Por um lado, trata-se da pressão neoliberal para fazer da escola uma empresa, por outro trata-se de simplesmente ir lidando com todos os entraves a que o ensino vai sendo sujeito. Com cada vez mais alunos, menos professores, menos dinheiro e mais ambição nos objectivos, só por milagre é que o ensino não se ia tornar num longo exercício de desenrascanço organizado por especialidade e área científica.

O problema do “realismo” é platónico – ao fazer do ensino uma reprodução do “mundo real”, falsifica-o nesse preciso momento. Se o realismo é o objectivo, a cópia será vista sempre como algo de segunda. Pelo contrário, o ensino da Bauhaus não era particularmente realista, o que não significa que sacrificasse pragmatismo. Os alunos trabalhavam em oficinas não para aprender como se trabalhava numa fábrica mas para tentarem descobrir maneiras novas de usar materiais e maquinaria. Era um ensino abstracto na medida em tentava pensar em soluções sistémicas, abstractas, por oposição a simplesmente reproduzir o que se fazia lá fora no “mundo real”.

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Filed under: Crítica

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