The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Espectador Calado

Outro dia alguém (um crítico) se queixava aqui no facebook de quem dizia que só se era crítico (de arte, cinema, literatura, design, arquitectura, etc.) por que não se podia fazer, porque se era um fazedor frustrado (de arte, cinema, literatura, design, arquitectura, etc.) É uma boca comum, que já ouvi umas tantas vezes, e para a qual já tenho algumas respostas de algibeira. Lewis Mumford, por exemplo, quando o acusavam de não ter legitimidade para falar sobre arquitectura (porque não era arquitecto) respondia que também não era uma galinha e sabia perfeitamente o que era uma boa omelete. Um dia alguém me respondeu a isso dizendo que, no caso da omelete, se tratava de degustar (uma coisa das sensações) e não verdadeiro pensamento, que os críticos de arte (era este o caso) não sabiam do que falavam. Por esta diferença entre sentir sem pensar e fazer pensando se vê o desprezo pelo crítico (que ainda tenta pensar) que é apenas uma subdivisão menor do desprezo pelo espectador (que nem isso). Penso que nunca se desprezou tanto o espectador: educa-se o espectador, põe-se o espectador a estudar, põe-se o espectador a trabalhar, planeiam-se actividades, visitas guiadas, leva-se o espectador pela mão, etc.

Ora, para mim o crítico é apenas um espectador que escreve (ou fala em público) sobre o que vê, lê ou ouve. Não é um criador frustrado mas um espectador frustrado, não no sentido de assistir ao que não quer mas no sentido de não chegar a ser o espectador idealizado, alguém que se limita a assistir. Ninguém é. Haverá pouquíssima gente que não comente o que viu. Em parte, é-se espectador para fazer parte de uma comunidade, para poder falar com outros sobre o que se vê em comum. O crítico é apenas um especialista nisso. E não precisa de mais. Poder responder a meios, a dinheiro, a poder, a talento, apenas com palavras é um direito mínimo, porque as palavras são baratas, são democráticas.

Não se emancipa o espectador pondo-o a fazer outras coisas que não sejam ser espectador (o espectador pode até ser um criador frustrado, não se sabe, mas é um espectador, com toda a certeza). Emancipa-se o espectador reconhecendo-lhe essa condição, e reconhecendo-lhe o carácter político, comunitário. É isso que Rancière sugere no seu texto O Espectador Emancipado, onde critica as ideias de Debord ou Brecht, para quem o espectáculo e o espectador são problemas a resolver. Significativamente, já li interpretações onde se defende que Rancière é Debordiano ou Brechtiano. Só significa que neste momento não se consegue conceber o espectador como uma acção em si mesma. É sempre preciso algo que o active a partir de fora. É sempre um problema a resolver.

Mas o espectador, no fundo, é algo a controlar. Percebe-se isso nas recentes polémicas sobre o humor. Assume-se que criticar um humorista por usar a palavra “mariconço” é equivalente a um acto de censura, quando o humorista continua a ter toda a liberdade de o usar depois da crítica ser feita. Não está a ser silenciado. Está a ser interpelado. E pode responder. Com humor ou recorrendo à justiça. Da mesma maneira que pode ser processado por difamar alguém ou de estar a espalhar o ódio, tem também todo o direito de processar quem o tenha acusado de tal. Os direitos são iguais. Mas, apesar de tudo, assume-se que a liberdade de expressão é predicada pelo silêncio crítico do espectador, que só pode fazer o que se espera dele: rir-se agora ou (como nos casamentos) calar-se para sempre.

A desconfiança da passividade do espectador não é nova. Mas nos últimos anos, começou-se a achá-la subversiva. Falo da doutrina do empreendorismo onde se faz equivaler o próprio sujeito a alguém que toma a iniciativa, que faz, que cria. Quem se limita a assistir é um problema a ser resolvido. Só se assiste como preparação para uma acção posterior. Assiste-se enquanto se espera pela vez de mostrar. Desde as épocas de Debord ou Brecht a acção tornou-se parasitária, alienante, principalmente depois do espectador e da crítica terem desaparecido. Vivemos numa Sociedade do Espectáculo onde não são autorizados espectadores.

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Filed under: Crítica

One Response

  1. Excelente texto. Verbalizou muito daquilo que penso dum modo que eu jamais conseguiria. Obrigada 🙂

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