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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O santo acima dos beatos

Da obra do Jan Tschichold talvez a parte que goste menos seja a mais copiada. Os livros da Penguin. O formato, a disposição do texto, a sua mancha, tudo soa familiar. Banalizaram-se porque se perderam no meio das cópias. É bom design no sentido modernista em parte porque se reproduz com facilidade. Não é suposto ser irrepetível.

Há por vezes uma reverência excessiva e acrítica pelo Tschichold que roça a beatice. Quando alguém me diz que gosta do Tschichold não sei muito bem se é um gosto intelectual ou se isso é apenas a beatice a manifestar-se como estética. Ao beato, não interessa muito compreender o objecto da sua devoção. Interessa-lhe o mistério, acima, e interessa-lhe o ritual, abaixo. O Tschichold presta-se a isso. Um dos seus livros era subtitulado «um ensaio sobre a moralidade do bom design».

Não é o que me interessa mais no Tschichold. Aliás, só me interessa pelo lado – vamos chamar-lhe assim – sociológico.

É fácil começar a menosprezar os santos, julgando-os pela qualidades dos beatos que os adoram. Seria injusto, no caso do Tschichold.

Só conhecia imagens e reedições da sua Neue Typographie. Ver o original de 1928 é uma revelação. É um livro em grande medida perfeito. Do papel, à mancha, à cor do texto, à reprodução das imagens, é uma pequena obra prima do género. Até comparado com outras obras primas da época.

O Malerei Fotografie Film do Moholy Nagy, que apareceu três anos antes, impressiona pela brutalidade dos negros, dos caracteres que deixam relevo, da crueza do papel, dos arranjos geométricos agressivos. O Neue Typographie é elegante na construção e clareza, até claridade, da página. A agressividade dos negros das vanguardas, visível em Moholy Nagy, dá lugar a um equilíbrio tonal perfeito.

Uma década, em 1938, depois Moholy Nagy já paginou o seu New Vision de um modo muito semelhante. Tschichold na altura estava à frente do seu tempo. Também porque o futuro seria de consolidação e até conservadorismo. As experiências extremas das vanguardas foram limadas até se tornarem numa receita. São inscritas numa tradição. O próprio Tschichold o fez no seu livro que, ao contrário dos da Bauhaus, incluía uma história da tipografia.

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Filed under: Crítica

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