The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Carrazeda de Ansiães

No Verão em que ardeu o Chiado fui passar o mês de Agosto a Carrazeda de Ansiães, com a minha tia-avó Puri, que era baixinha como um Hobbit. Vivia numa casa a condizer, com uma escada de pedra com um vaso em cada degrau, um pequeno alpendre e portas onde eu martelava a testa pelo menos uma vez por dia. Foi inesquecível.

Eu ia a meio da adolescência. Da parte em que se gosta de Rimbaud, nem se sabe bem como ou porquê. É um instinto, igual ao das tartarugas que insistem em ser atropeladas a caminho da desova numa praia qualquer. A minha tia era mais prosaica. Tinha uma casa de banho luminosa e arejada, forrada a azulejo verde claro hidráulico com uma janela que dava para o largo da Igreja. Junto à banheira havia uma abertura quase do tamanho de uma porta tapada por uma cortina. No pequeno compartimento guardava os sapatos em prateleiras e toda a sua biblioteca (passei muito tempo por lá, a vasculhar Selecções empoeiradas do Reader’s Digest). Um dia que me apanhou a ler O Ano da Morte de Ricardo Reis (era o centenário de Pessoa), foi buscar à casa de banho o Férias com Salazar. Educadamente recusei.

Nunca tinha estado tanto tempo em Carrazeda e estranhei os hábitos. No dia em que cheguei, o dono de um matadouro rebentou com dinamite o seu próprio armazém para defraudar a seguradora. A sua falta de experiência abriu uma cratera com uns dois metros de fundo que fui visitar com a minha tia e os seus amigos. No dia seguinte, comentou-se à refeição um acidente viário que tinha feito vítimas ali ao pé. Nessa noite, fomos de carro ver o local. Percebi que essas romarias eram comuns. Fiquei com a imagem de oliveiras a passarem demasiado rápido pelas janelas do nosso carro enquanto desandávamos por uma estrada escura. O carro da frente atropelou um animal com um solavanco.

Num jantar de festa conheci uma das poucas pessoas que votava à esquerda em Carrazeda. Tinha um cão e era agressivo. (Ele. O cão era gigante e pacífico. Aceitava as festas.) Anos depois, soube que um vizinho o atingiu a tiro numa discussão sobre sebes de quintal. Ficou num coma que acabou por ser fatal. O vizinho andou a monte e acabou por se entregar. Tive oportunidade de apresentar as condolências às irmãs bastante mais velhas. Só me responderam que “era um rapaz tão turbulento”.

Algum tempo depois, o Expresso publicou um especial sobre criminalidade rural. Trás-os-Montes era a região com mais crime. E Carrazeda de Ansiães era o munícipio com mais crime de Trás-os-Montes.

Filed under: Crítica

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