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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Novas Autorias

Caso tenha tempo, gostava de me debruçar num desenvolvimento da história recente (últimos quinze anos, se tanto) do design português: a maneira como estúdios de design assumidamente clássicos e até antigos começaram a reclamar uma ideia de autoria, tornando-a central ao modo como vêm o design. Exemplos: Francisco Providência e João Bicker.

É um desenvolvimento curioso que demonstra como o design português é, em definitivo, pós-moderno. Seria impossível encontrar a ideia do designer como autor em gente como Paul Rand, Muller Brockmann, ou Tschichold.

Não é o facto de escreverem ou publicarem sobre o seu próprio trabalho que os torna autores. Rand, talvez o mais auto-centrado de todos, o único que reclamava o design como uma forma de arte, tinha um cuidado bastante grande em parecer modesto. Os livros que editou sobre o seu próprio trabalho empenhavam-se em parecer tratados sobre valores universais e até impessoais. Acreditava que se podia tornar no melhor designer possível na medida em que abandonava tudo o que era pessoal.

Designers como José Brandão tinham uma deontologia muito forte que ditava que o que produziam era feito como um serviço para clientes. Era para eles problemático recolherem esse trabalho sob a alçada da sua própria autoria. Preferiam que essa recolha fosse feita por outros que não eles. Não era só uma questão de modéstia mas de ética.

Assim, a reclamação de uma autoria para o design «clássico» é recente e muito interessante. Ponho a hipótese que é um desenvolvimento local, porque ainda não vi nada do mesmo género em outros sítios.

De resto, muitos designers associados à noção de autoria rejeitam a ideia de um design de autor. É mais uma coisa que lhes chamam do que algo que assumam. Nas gerações mais recentes, a autoria é algo que nem se coloca. O design já é algo que inclui coisas como o empreendedorismo, a ideia que se pode trabalhar sem ter à partida um cliente.

Só nos contextos mais tradicionalistas é que, ironicamente, se fala de autoria. Talvez a razão para isso seja uma questão de concorrência: as grandes encomendas públicas já não querem designers modestos e invisíveis mas gente que possa dar entrevistas, aparecer e ter visibilidade. Faz parte do pacote da produção de uma identidade, essas tarefas promocionais. Daí que se tenha começado a falar de autoria.

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Filed under: Crítica

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