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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Verdade das Imagens

Há gente que acredita que uma imagem num artigo de jornal é uma mera ilustração dos factos. Deveriam pensar um bocadinho. O artigo que a imagem acompanha também é uma mera ilustração dos factos.

Nos últimos dias, apareceram duas imagens verdadeiras tornadas falsas pela legenda. A foto de uma criança dentro de uma jaula tirada durante uma manifestação que andava a circular como se fosse de uma prisão. A foto de uma criança a chorar enquanto a mãe estava a ser revistada, e que afinal não mostrava uma separação.

Cada uma delas documentava um momento e acabou por ser usada para ilustrar outros. Mas a sua força não é a de um desenho mas da conotação documental da imagem fotográfica. Parece objectiva mas é muito simples pô-la a mentir.

O caso da fotografia da separação assim o demonstra. Quase nem precisa de legenda. É como a história de Ambrose Bierce que Eisenstein gostava de citar. Um homem ao visitar um cemitério encontrou uma mulher vestida de negro a chorar desalmadamente junto do túmulo recente de um homem. Querendo consolá-la, disse: «Minha senhora, esteja descansada. Para além do seu marido, há-de haver no mundo um homem que lhe dê felicidade.» E ela soloçou ainda mais apontando para o campa. «Havia, mas está ali.» A moral é que, quando se vê uma mulher de negro, assume-se que «viúva» e não «amante».

Do mesmo modo, a foto da criança ilustra separação mas não é um detalhe secundário se é a separação de um momento ou se é definitiva.

Uma história torna-se ficcional ou falsa não por qualquer verdade intrínseca dos seus ingredientes mas também pelo modo como se organizam. Assim, uma foto verdadeira pode ser usada para contar falsidades e uma foto falsa pode ser usada para dizer verdades. E há ou deveria uma ética, um dever para com a verdade no modo como as imagens são produzidas e reproduzidas.

Isso é particularmente importante hoje em dia, quando se impõe um discurso indiferente à verdade ou à mentira e ao qual interessa apenas a manipulação. Não é um discurso do poder, que vem de cima, mas que já está suficientemente disseminado e que se revela quando há gente que partilha imagens falsas, ou falsificadas pela sua interpretação, como se fossem uma prova e quando confrontadas com isso se recusam a corrigi-las porque afinal são só uma ilustração ou uma interpretação de um evento real.

Percebe-se que o argumento é falacioso quando as suas conclusões se mantêm depois das suas premissas passarem de verdadeiras a falsas. Ilustrar uma história verdadeira com uma imagem que não lhe corresponde faz diferença. Abre o flanco a que se diga que a própria história ilustrada é falsa. Abre o flanco a que se diga que quem a transmite está a mentir, não apenas sobre a foto mas sobre tudo. E dizer que o valor documental da foto não interessa só sublinha que há uma indiferença, um desleixo para com a verdade. E é isso que é particularmente grave.

Pode nunca se saber a verdade objectiva. Estamos condenados a uma aproximação através de interpretações. Mas, pelo contrário, podemos saber se essa aproximação é feita com rigor. Não é rigor quando se muda a ética que se tem com uma imagem a meio da conversa e se espera que isso não faça diferença.

Filed under: Crítica

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