The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Autoria

Espreitei o livro sobre o Francisco Providência que saiu com o Público, onde se menciona muito de passagem a sua teoria, segundo a qual se podem identificar «três agentes de produção na produção da origem do projecto de design»:

«a tecnologia da sua construção, com todos os constrangimentos e potencialidades plásticas que isso implica; a autoria, como aquele recurso, singular ou colectivo que, constitui o imperativo da cultura onde, porventura, se produz a beleza; e o programa, ou seja a finalidade do objecto invocada pelo cliente e respectiva expectativa funcional.»

Tenho encontrado muitas vezes este esquema como metodologia crítica de teses, papers e apresentações, e sempre me pareceu insuficiente para descrever o design, tanto historicamente como no presente. Não me parece que todo o design possa ser reduzido a esses três agentes sem distorções de monta.

Por exemplo, o design de tipos é um campo de autoria forte dentro das “tecnologias de construção” do design. Um dos constrangimentos ao designer que usa uma fonte é muitas vezes essa autoria exterior. Ou então o programa, que aqui é associado ao cliente e que por vezes é traduzido por brief: sempre houve designers para quem o programa não é tão determinado pelo cliente mas por regras internas (veja-se o design suíço) que são produzidas tanto como um princípio de adequação à técnica como de adequação à sociedade. Neste caso, esse programa acaba por determinar a modalidade de autoria, a identidade de quem produz design: um funcionário neutro e nem tanto um autor.

Acrescente-se que, tanto no design como no resto, a ideia de autoria que aqui é reduzida às opções de individual ou colectiva é, como muita gente que trabalhou a teoria do autor sabe, complicada: não é dada à partida mas é performativa e vai variando ao longo do tempo. A autoria não é determinada pela pessoa ou pessoas que fazem mas é uma função, como lembrava Foucault. Uma função determinada por um conjunto de factores que podem incluir o género (porque não há tantas mulheres designers autores como homens?), as instituições onde o design é praticado (porque tendem a aparecer mais autores associados a escolas e a certo tipo de modelo de exercício da profissão como a firma ou o atelier?) e, assumindo que os há, o próprio cliente pode determinar o tipo de autoria do designer que trabalha para si: pode preferir um designer estrela ou um designer discreto ou simplesmente um programa informático que faça o serviço.

Um designer com formação modernista abdicava de uma autoria “forte” em nome dos seus clientes. O designer via-se como uma ferramenta ao serviço de outrém. Já vi vários destes designers modernistas incomodados quando num catálogo de design se identifica um logo que fizeram para um cliente como sendo “seu”. Lembro-me do José Brandão se queixar do uso do logo produzido para um cliente para identificar Sebastião Rodrigues na capa do livro que lhe dedicaram.

Hoje, a ideia de uma autoria dentro do design é pacífica e sublinhada por inúmeras monografias mas nem sempre foi assim. Daí que o esquema proposto por Providência acabe por ser mais prescritivo do que descritivo. Identifica aquilo que na sua opinião deve ser o design mais do que aquilo que é.

Naturalmente, há muito mais o que dizer sobre isto.

Este texto é a versão de outro que publiquei no facebook em 2016.

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Filed under: Crítica

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