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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Discutir com imagens

Quando se começou a usar o vídeo-árbitro no futebol, um dos efeitos secundários mais interessantes foram as discussões que houve aqui no facebook, muitas delas feitas com o apoio de imagens. Faziam-se gifs a demonstrar que tal jogador estava em fora de jogo, comparando com uma paralela à linha da baliza, depois vinha alguém que contrapunha que não podia ser uma linha paralela porque em perspectiva as paralelas convergem para um ponto, ao que outra pessoa acrescentava que a perspectiva linear é uma abstracção porque a lente da câmara somava a sua própria distorção que encurva as linhas, e visto isso tudo, com que parte do corpo do futebolista se mede a sua posição, sobretudo se está a saltar? A mão? O pé? Ou pelo contrário a bola? Assim, uma coisa que parecia certa e científica estava sujeita a uma multiplicação de significados antagónicos que nunca se poderiam resolver.

A mesma coisa se passa com a discussão se dado cartoon é ou não racista. Em qualquer um dos casos, mesmo sem formação, usa-se o tipo de método dos diversos especialistas em análises de imagem. Procura-se perceber se é razoável que tal imagem possa ser interpretada ou não como racista.

Alguns vão pela cor dos personagens, uma análise que anda próxima da que é praticada pela iconografia em arte. Assim concluem que Serena e Osaka até têm a mesma cor de referência. Infelizmente, a mesma cor, como já sabia Josef Albers, pode ser percebida de modo muito distinto por causa das cores que a rodeiam. E mesmo o contexto altera a percepção da cor. Há uma experiência onde simplesmente se pede a alguém para escrever vermelho com uma caneta azul e vice-versa. É difícil. Há uma resistência.

Outros vão pelo traço, contrastando o tipo de fisionomia usado para representar Williams e Osaka, e como essas representações se aproximam ou não de outras representações ao longo do tempo. Uns dizem que Williams se parece com as representações racistas de negros em cartoons da época do Jim Crow. Outros contrapõem que já houve caricaturas semelhantes de McEnroe que é branco. Os primeiros respondem que representar um branco como um macaco não é o mesmo que representar um negro, porque há todo um historial de representar negros como macacos por defeito.

Há depois os que ironizam ou protestam que já não se pode fazer caricaturas de negros, ou que pelo menos um branco não as pode fazer, e a isso responde-se que é possível mas que é preciso algum cuidado, porque o próprio campo da caricatura tem um passado racista que se confunde com a própria história da disciplina. É preciso ter consciência do que se faz. Já pouca gente faz caricaturas de judeus com o nariz encurvado e agarrados a um saco de dinheiro. Em tempos, era a maneira convencional de representá-los. Hoje já se consegue caricaturar um judeu, Netanyahu por exemplo, sem lhe realçar ou impôr os supostos traços de um judeu. É perfeitamente possível representar um afro-descendente sem fazer dele o desenho típico de um negro.

Porque, como acrescentam outros, também é possível aferir se o cartoon é racista pelo modo como o seu desenhador representa negros, e depressa se descobriu que tem o hábito de usar afro-descendentes quando quer representar assaltantes, gente que se está amotinar, etc.

Pode-se também discutir se o racismo é intencional ou não, e se pode ser racista se não houver intenção. Aqui, contrapõe-se que mesmo não sendo intencional é possível que um dado cartoon tenha, por acidente, uma leitura racista. Os designers riem-se muito daquelas senhora que foi apoiar o Clint Eastwood com um cartaz com as letras tão juntinhas que se lia «Cunt». Foi sem querer mas é mau na mesma e a culpa não é de quem lê mas de quem fez o mau lettering.

Tudo isto são noções que se aprende quando se lida com imagens, tanto produzindo-as como analisando-as. São instâncias de iconografia, de semiótica, de teoria do autor, de ética da imagem, etc. E é bastante interessante. Faz-me pensar que nesta época em que cada vez mais pessoas produzem e consomem imagens, onde se discute não apenas imagens mas com imagens, seria muito útil haver mais consciência destes métodos. Não sei se na escola ainda se dedica mais tempo a analisar textos do que a analisar imagens. Ou se a análise de imagens ainda é uma especialização enquanto a análise textual é considerada cultura geral.

De tudo isto, o único discurso pouco produtivo é o do «já não se pode dizer nada», «ai a ditadura do politicamente correcto», «vem aí a polícia do pensamento». Em qualquer um dos casos acima, tanto do lado do pró como do contra, apresentaram-se argumentos. Do lado dos que se queixam que já não se pode dizer nada, temos gente que não tem argumentos nenhuns mas acha que, em sua homenagem e por respeito, os outros deviam estar mais calados do que eles.

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Filed under: Crítica

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