The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Censura em Serralves

Acreditem ou não, quando isto de Serralves começou, andava para escrever um texto onde defendia que havia muito menos gente a atacar o politicamente correcto na arte contemporânea do que na literatura e no jornalismo português.

Raciocinava eu que os artistas têm mais circulação internacional do que os escritores e portanto são mais pressionados pelas tendências globais. Neste momento, para se ser artista ou curador, e circular pelas bienais e residências, é preciso ser inclusivo, ser feminista, perceber de pós-colonialismo, etc. Por outro lado, um escritor, um jornalista ou um comediante que está mais preso à língua e a um espaço geográfico, pode dar-se ao luxo de ser grunho, de defender o direito a dizer piadas de gajas, a acreditar que atrás da inclusão vem o totalitarismo, etc.

Metessem umas legendas inglesas no Governo Sombra e atirassem-no para os EUA e é provável que aparecesse no segmento mais brando da Fox News. É até provável que o Presidente Trump twitasse um polegar a apontar para cima ao Ricardo Araújo Pereira, ou que o Richard Spencer engraçasse com o João Miguel Tavares tal como já engraçou com o Zizek.

Achava eu portanto que nas artes havia menos gente a queixar-se em público do politicamente correcto. E é claro que estava enganado.

Neste caso de Serralves, saíram logo uns tantos a público a dizer que o politicamente correcto era uma censura tão má ou pior do que a feita a Mapplethorpe em Serralves. É misturar alhos com bugalhos – ou, como veremos, com caralhos.

Uma dessas pessoas é o director do Museu Nacional de Arte Antiga, António Filipe Pimentel, que diz coisas destas: “A minha preocupação, e de muitas pessoas ligadas à cultura e aos museus, [é] a forma como se está a impor uma espécie de censura do politicamente correto, que é um novo puritanismo que é muito perigoso, porque oculta depois outros autoritarismos que virão por trás”. Não é o único mas é exemplar.

É absurdo misturar-se a censura de uma exposição de Mapplethorpe com a suposta censura do politicamente correcto. Porque Mapplethorpe é politicamente correcto, e o que provoca os censores em Mapplethorpe é correcção política.

Percebe-se isso bem quando se vê uma série de pessoas que escrevem para os jornais resumirem o caso de Serralves como sendo a censura de umas pilas. Espantam-se eles como no início do século XXI ainda se censuram caralhos. E na verdade já não é muito comum censurarem-se caralhos. Ou sequer censurar-se pornografia. Há uns tempos atrás, Julião Sarmento levou actrizes pornos e mulheres a despir-se a Serralves e ninguém se chateou. Ainda na semana passada, numa salinha estava uma foto de Jeff Koons em pleno acto com a Cicciolina. E ninguém se chateou. Porque não é de chatear. Não tem havido problemas em levar pornografia para os museus em geral e para Serralves em particular.

É mais fácil para muitos lidar com o problema que Mapplethorpe levanta resumindo o seu trabalho a pilas e a cenas sadomaso. Mas as pilas dele às vezes não são brancas, às vezes não se sabe se são hetero, às vezes as mulheres deles são musculadas como se fossem homens, às vezes não se percebe se a mulher branca a chupar um negro é um acto íntimo ou algo pago. E essa incerteza resolve-se através de avisos. Os museus são daqueles sítios onde se cria pornografia através do simples acto de lhe carimbarem um aviso. Outro sítio são as colunas de opinião onde se reduz Mapplethorpe a pilas. Mapplethorpe incomoda porque representa um tipo de inclusão, um tipo de politicamente correcto que faz ainda mais comichão, que não encaixa na imagem que querem fazer dele de um puritanismo, de uma falta de emoção, de sentido de humor e até de erotismo.

Se as fotos de Mapplethorpe realmente fossem pornografia, ninguém se dava ao trabalho de as censurar.

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Filed under: Crítica

One Response

  1. Jose Mateus diz:

    bem visto!

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