The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Aprender a Chorar na Era da Técnica.

IMG_4425

Antes do avião descolar, pedem-nos para prestar atenção às instruções de segurança. Enquanto os assistentes de bordo fazem a sua mímica, gosto de ir olhando para a folha plastificada com aquela banda desenhada rudimentar onde nos mostram o que fazer em caso de desastre. Homens e mulheres de cores vivas e planas, de traço resumido a partir de fotos, encolhem-se no assento do modo correcto, com as mãos atrás da nuca, dirigem-se para as saídas de modo ordeiro.

Imagino que tenham pontos no lugar dos olhos, porque é assim que Nick Drnaso desenha as suas personagens em Sabrina, uma das melhores coisas que já li este ano. Desenha-as como vítimas de desastres, desenha-as na linguagem gráfica com que se ensina a sobreviver.

Sabrina, a personagem titular, saiu um dia de sua casa e não voltou. A família deu-a como desaparecida e preparou-se para o pior. Não tinha uma vida extraordinária, os seus problemas eram comuns. Vê-mo-la a sair para esse último percurso. É uma vida genérica, numa casa genérica, numa rua genérica. Depois seguimos o longo percurso dos que sobrevivem a essa tragédia, o modo como lidam com o seu desaparecimento, com o luto. Sabrina é como um manual de sobrevivência imperfeito, que se vai perdendo no labirinto de uma tragédia inédita, nova, com a qual ainda não se sabe lidar.

É a sobrevivência e o luto na era das redes sociais, dos trolls, das fake news, das vítimas que são acusadas de serem actores ao serviço de encenações diabólicas. De gente comum obrigada, quer queira quer não, a encenar a sua perda em público.

Foi, para mim, do melhor que li este ano, seja ou não em banda desenhada.

Filed under: Crítica

Apitos para Cão

Falemos em primeiro lugar de jornais em papel. Se estivermos a usar o inglês, para indicar a importância de uma notícia não basta dizer que é de primeira página, é preciso saber se é «above» ou «below the fold». Quando um jornal é vendido numa tabacaria, ele é dobrado em dois ou tapado em parte por outros jornais, ficando mais visível a parte de cima da primeira página que inclui o nome da publicação. Daí que as notícias mais importantes sejam as que aparecem «above the fold», acima da dobra. Num jornal, o espaço é fortemente hierarquizado, o que é palpável nos preços de anúncio por página – quanto mais visível ou imediato, mais caro.

Quando se estuda design de jornais, essas hierarquias são apresentadas como momentos no tempo – o que o leitor vê em primeiro lugar, o que vê em segundo, e por aí adiante – quando são, acima de tudo, uma hierarquia de acesso – quem pode ler e por quanto, quem é o leitor comum e o leitor Premium. Já se sabe há muito que nem toda a gente que lê um cabeçalho na banca compra o jornal. Desde que existem jornais que notícias de segunda página deitam banhos de água fria em manchetes bombásticas de primeira página. No limite, calunia-se alguém na primeira página, publicando o desmentido na segunda. E, no caso da vítima recorrer aos tribunais, argumenta-se que, Senhor Doutor Juiz, a história está lá toda, a capa era só para chamar a atenção, um jornal precisa de fazer pela vida. Perdendo o caso, enterra-se o acto de contrição onde embarace menos.

Os truques são antigos. Com a internet, ganharam uma vida nova. Uma vida literal. Neste momento, é possível dirigir cirurgicamente campanhas de informação ou desinformação a pessoas ou grupos específicos. O caso Cambridge Analytica é o exemplo mais conhecido. Obtêm-se os gostos, os ódios e os hábitos de milhões de pessoas e depois cria-se informação feita por medida para que os algoritmos das redes sociais a guiem até ao alvo como um míssil teleguiado.

A isto acrescem os «apitos para cão». Pode-se conceber uma informação de modo a que pareça inocente à maioria das pessoas, mas carregue um significado distinto a grupos distintos. Os discursos de Trump ou de Bolsonaro estão carregado de termos que são ouvidos de modo muito diferente pelos seus apoiantes e por quem se lhes opõe. Da mesma maneira, um jornal online pode parecer completamente distinto a quem o assina e pode lê-lo na totalidade, ou a quem o consome de graça e só lê os títulos, pequenos resumos ou primeiros parágrafos. Para o leitor gratuito, um jornal toma a aparência de um banho de sensacionalismo populista, clickbait puro. Também aqui é possível caluniar na primeira página e, se preciso for, fazer a trafulhice de enterrar o desmentido nas caixas de comentários. Acontece todos os dias.

É importante que se fale das fake news. Elas não são um sintoma da ascensão dos populismos mas uma das suas causas principais. São o que existe de comum à conquista do poder democrático por parte de grupos de extrema direita. No Brexit, na eleição de Trump, nas eleições francesas e brasileiras, a proliferação de notícias falsas em plataformas como o facebook ou o whatsapp têm sido o fenómeno recorrente. Felizmente, já não se vê isso apenas como um efeito mas algo de novo e estrutural. O Diário de Notícias publicou neste fim de semana um conjunto de peças importantes sobre o assunto em Portugal, com o único defeito que se centrou sobre esforços artesanais. A produção de fake news é uma indústria que não capitaliza apenas com a credulidade dos leitores mas também da cupidez dos jornais que rapidamente encontraram modos de as capitalizar.

Não adianta dizer mal das fake news quando, por exemplo, se usam os velhos esquemas de hierarquizar a informação, mostrando lixo ao leitor comum, enquanto se reservam as notícias a sério a quem paga. O que fica é o lixo. Não adianta usar códigos deontológicos quando se escreve notícias quando não se aplica o mesmo às colunas de opinião e de crítica onde se podem publicar erros e mentiras, cuja correcção fica a depender dos caprichos do autor, sacudindo as redacções a água do capote. O rigor de um jornal também se avalia pela qualidade da sua opinião. Se é só opinião ou se é opinião sustentada.

Filed under: Crítica

TV

Untitled 2.png

Apareci na televisão a falar sobre revistas. Foi no segundo episódio do programa Armário. Está no RTP Play.

Filed under: Crítica

Há um Ano

Há um ano, terminava eu o ensaio «O Design que o Design Não Vê», que daria o título ao livro da Orfeu Negro. Como podem ver, o nome ainda era ligeiramente diferente. Escrevi-o entre o meio do Verão de 2017 e o fim de Outubro. Em cada um dos lançamentos, houve a oportunidade de o usar como ponto de partida para tocar em mais assuntos. Neste momento, já me apetece escrever sequelas e expansões.Screen Shot 2018-10-20 at 08.55.20

Filed under: Crítica, O Design que o Design Não Vê

Trufas

Acontece ver filmes porque determinado crítico os recomenda. Richard Brody, da New Yorker, é talvez o crítico que mais me põe à procura de um filme. Pelo contrário, também me acontece, embora seja raro, procurar um livro ou um filme mal avaliado por um crítico particularmente inepto. A única vez que fui ao cinema desde que a minha filha nasceu – tenho saudades disso, de ir ao cinema – foi o Black Panther e por causa de críticas bastante indigentes. Hoje, por exemplo, comprei um livro em parte porque um dos piores críticos que já li escreveu mal sobre ele. É um livro curto – e já compensou a leitura.

Como é evidente, pode dar-se o caso de um mau crítico dar notas positivas a objectos interessantes e negativas a coisas que não interessam, mas fá-lo-á sempre com os piores e mais mal amanhados argumentos possíveis. Apanhar com um mentecapto a defender uma coisa que gostamos recorrendo a alarvidades é capaz de ser pior do que gramar um idiota a fazer uma crítica mal feita de algo que detestamos. Há ainda aquele mau crítico raro que é como uma espécie de porco que foge das trufas. Basta só escavar na direcção de onde ele se tenta escapar e não é raro encontrar preciosidades.

Filed under: Crítica

Conversa nas Belas Artes de Lisboa

IMG_4345.jpg

Ontem fui conversar às Belas Artes de Lisboa sobre «O Design que o Design não vê». Foi uma palestra bastante estimulante. Parti do primeiro ensaio do livro para tratar de um conjunto de assuntos paralelos. Houve boas perguntas da plateia. Entretanto, trouxe o jornal da exposição «Crise de Identidade» dos finalistas de design, onde vem incluído um excerto do livro. Dá uma bela trajectória em círculo: num dos ensaios falo do catálogo da exposição de 2015, que era um belo objecto.

Filed under: Crítica

Ir às fontes

A maioria do que se escreve sobre design é um tédio. Se me quero divertir ou irritar, vou à procura de textos antigos que não conheça. Bem mais entusiasmante ler uma coisa do Moholy-Nagy que ainda não se conhece. Prefiro chatear-me com os chatos originais, o Rand ou o Tschichold, do que com um dos seus muitos derivados, que conseguem a proeza de, além de estarem sempre a citar o pior de cada um destes dois, perceberem tão pouco do que citam que o pioram de modos que chegam a ser inovadores.

Filed under: Crítica

Os Velhotes

Das coisas que irritam mais em certas áreas como o design, a fotografia, a arte ou o cinema são aquelas figuras de sacristão que vão a exposições e a conferências com o objectivo de se certificarem que está tudo nos «conformes» – que são os limites do que sabem e do que querem saber sobre o assunto. Tudo o que ultrapasse isso está errado. Tudo o que não confirme o que já sabem é suspeito. Para eles, um objecto ou uma figura têm uma maneira «correcta» de ser tratados. Tomam posse efectiva do seu objecto e vêem cada trespasse com maus olhos. Administram o que se costumava chamar capelinha e acendem-lhe as velinhas, espanam-lhe as teias de aranha, recolhem o dinheiro das esmolas e decidem quem pode entrar ou quem só vem fazer pouca vergonha. Volta e meia, encontra-se um. Frequentam as conferências e as exposições como velhotes as sessões de bingo.
Hoje contaram-me uma história de uma dessas figuras.

Filed under: Crítica

A Arquitectura do Livro

Finalmente, vim espreitar a excelente exposição dedicada ao Lisboa Cidade Triste e Alegre. Foi um prazer. Só lamento realmente ter tido o acesso a praticamente todos os documentos expostos muito antes de a ver. É a desvantagem de ter escrito para o catálogo e de, ao contrário do que costuma suceder, o acompanhamento que foi feito ao meu texto ter sido excelente, fornecendo-me tudo o que precisava e ainda mais. O que ficou por saber foi a narrativa curatorial, uma sucessão que faz tudo o sentido e encontra dispositivos engenhosos para informar o visitante.IMG_4322IMG_4323
Interessante foi também ver ao vivo e todas juntas as diferentes encarnações do livro, desde o fascículo à penúltima reedição.

O meu primeiro contacto com o livro, há muitos anos, foi trepidante. Andei durante uns dias com a cópia de Costa Martins emprestada dentro da mochila. Retenho a textura granulada e o cheiro da impressão, os diferentes pesos dos papéis usados, desde as cartolinas das guardas até ao papel fino do índice que crepitava como um jornal ao folhear. Lembro-me da fita-gomada branca usada para remendar os cadernos que se soltavam, da capa protectora de plástico tornada baça pelo uso. Boas memórias.

Filed under: Crítica

Em branco

IMG_4318

Li-os quase um a seguir ao outro e fazem um conjunto, um sentido, inesperado que os amplifica. Do primeiro, calculo que toda a gente saiba nem que seja o título e algumas expressões como Big Brother, newspeak, doublethink, memory hole ou room 101. Do segundo, pouca gente saberá o que quer que seja. Nem sequer é dos livros mais conhecidos de James Baldwin. Foi agora editado em português, vai ser um filme de Barry Jenkins, o do Moonlight.

E contudo, quando os li, juntos, sem esse propósito, foi o acaso, pensei, que os juntou, fizeram sentido, mostraram-se um ao outro de um modo novo. Não foi o acaso, claro. O 1984 vem à baila por causa das fake news, das supostas polícias do pensamento reais ou inventadas, da própria história que é eliminada como um acto de poder. Vem à baila por causa do chamado politicamente correcto que supostamente vem censurar a liberdade de expressão. O outro vem à baila quase pelas mesmas razões mas do lado do avesso, do lado de cá.

O 1984 podia ser uma caricatura que não sobrevive à mitologia que se construiu mais ao lado do que em cima dele. Até houve um reality show. Mas é um bom livro. É uma história de amor num mundo onde as histórias de amor são impossíveis porque a própria HIstória é impossível, constantemente feita e refeita e desfeita, onde se é vigiado a cada momento, preso e torturado a cada momento, onde lembrar o passado é um crime.

O que se aprende lendo «If Beale Street Could Talk» a seguir a 1984 é que aquilo que a um homem branco parece uma distopia inimaginável e grotesca para uma mulher negra americana é o dia-a-dia. É também uma história de amor impossível vivida num sítio e por pessoas cuja história é constantemente apagada e distorcida, onde os próprios nomes, os nomes próprios, são as marcas que os donos lhes puseram quando eram escravos, onde é possível ser preso e torturado e morto a cada momento, sem nenhuma razão, onde lembrar o passado é um risco e até um crime. É uma história de amor interrompida por um sistema racista destinado a interromper esse tipo de coisas.

O que se tira é que o 1984, mudando a cor e a nacionalidade dos protagonistas, de repente quase podia ser uma novela de amor realista passada no Harlem.

«Imagine a boot stamping on a black face. Forever.»

O que se tira é que há toda uma história apagada, que é o tema recorrente da ficção afro-americana, desde os comics até ao cinema, passando pela literatura e pela arte, toda uma memória, uma identidade, que foi e é obliterada, que é tão diferente e tão necessária daquilo que se costuma confundir com a cultura universal e que no fundo, por contraste, é a cultura branca.

Será que é razoável exigir a um Joyce que seja menos irlandês o mesmo que se exige a um Baldwin, que se fosse menos escritor negro seria melhor escritor? Será que é possível dizer, e insistir, como se insiste regularmente, que se pode esquecer que Céline era um escritor branco ou que Riefenstahl era uma cineasta branca? Porque não é tanto o caso de serem cada um deles racistas que os torna brancos, mas o acto de se decidir esquecer isso em nome da literatura, quando não se faz o mesmo por um Baldwin ou por uma Nella Larsen ou um Ta-Nehisi Coates. Quando se lhes pede que esqueçam o que são, não em nome deles mas no nosso.

Filed under: Crítica

Responsabilidades

Screen Shot 2018-10-01 at 11.10.47

Já pensava que isto não existia: um jornal a enganar-se e a publicar uma correção. Se fosse em outros jornais, estavam a culpar o José Augusto França por ter tido o desplante de não falecer.

Filed under: Crítica

Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico.

Autor do livro O Design que o Design Não Vê (Orfeu Negro, 2018). Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

História Universal do: Estágio

O "Estágio"
O Negócio Perfeito
Maus Empregos
Trabalho a Sério
Design & Desilusão
"Fatalismo ou quê?"
Liberal, irreal, social
Conformismo
Juventude em Marcha
A Eterna Juventude
Indústrias Familiares
Papá, De Onde Vêm os Designers?
Geração Espontânea
O Parlamento das Cantigas
Soluções...

História Universal dos: Zombies

Zombies Capitalistas do Espaço Sideral
Vampiros, Zombies, Classe Média

Comentários

Comentários fora de tópico, violentos, incompreensíveis ou insultuosos serão sumariamente apagados.

Arquivos

Categorias