The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Em branco

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Li-os quase um a seguir ao outro e fazem um conjunto, um sentido, inesperado que os amplifica. Do primeiro, calculo que toda a gente saiba nem que seja o título e algumas expressões como Big Brother, newspeak, doublethink, memory hole ou room 101. Do segundo, pouca gente saberá o que quer que seja. Nem sequer é dos livros mais conhecidos de James Baldwin. Foi agora editado em português, vai ser um filme de Barry Jenkins, o do Moonlight.

E contudo, quando os li, juntos, sem esse propósito, foi o acaso, pensei, que os juntou, fizeram sentido, mostraram-se um ao outro de um modo novo. Não foi o acaso, claro. O 1984 vem à baila por causa das fake news, das supostas polícias do pensamento reais ou inventadas, da própria história que é eliminada como um acto de poder. Vem à baila por causa do chamado politicamente correcto que supostamente vem censurar a liberdade de expressão. O outro vem à baila quase pelas mesmas razões mas do lado do avesso, do lado de cá.

O 1984 podia ser uma caricatura que não sobrevive à mitologia que se construiu mais ao lado do que em cima dele. Até houve um reality show. Mas é um bom livro. É uma história de amor num mundo onde as histórias de amor são impossíveis porque a própria HIstória é impossível, constantemente feita e refeita e desfeita, onde se é vigiado a cada momento, preso e torturado a cada momento, onde lembrar o passado é um crime.

O que se aprende lendo «If Beale Street Could Talk» a seguir a 1984 é que aquilo que a um homem branco parece uma distopia inimaginável e grotesca para uma mulher negra americana é o dia-a-dia. É também uma história de amor impossível vivida num sítio e por pessoas cuja história é constantemente apagada e distorcida, onde os próprios nomes, os nomes próprios, são as marcas que os donos lhes puseram quando eram escravos, onde é possível ser preso e torturado e morto a cada momento, sem nenhuma razão, onde lembrar o passado é um risco e até um crime. É uma história de amor interrompida por um sistema racista destinado a interromper esse tipo de coisas.

O que se tira é que o 1984, mudando a cor e a nacionalidade dos protagonistas, de repente quase podia ser uma novela de amor realista passada no Harlem.

«Imagine a boot stamping on a black face. Forever.»

O que se tira é que há toda uma história apagada, que é o tema recorrente da ficção afro-americana, desde os comics até ao cinema, passando pela literatura e pela arte, toda uma memória, uma identidade, que foi e é obliterada, que é tão diferente e tão necessária daquilo que se costuma confundir com a cultura universal e que no fundo, por contraste, é a cultura branca.

Será que é razoável exigir a um Joyce que seja menos irlandês o mesmo que se exige a um Baldwin, que se fosse menos escritor negro seria melhor escritor? Será que é possível dizer, e insistir, como se insiste regularmente, que se pode esquecer que Céline era um escritor branco ou que Riefenstahl era uma cineasta branca? Porque não é tanto o caso de serem cada um deles racistas que os torna brancos, mas o acto de se decidir esquecer isso em nome da literatura, quando não se faz o mesmo por um Baldwin ou por uma Nella Larsen ou um Ta-Nehisi Coates. Quando se lhes pede que esqueçam o que são, não em nome deles mas no nosso.

Filed under: Crítica

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