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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Apitos para Cão

Falemos em primeiro lugar de jornais em papel. Se estivermos a usar o inglês, para indicar a importância de uma notícia não basta dizer que é de primeira página, é preciso saber se é «above» ou «below the fold». Quando um jornal é vendido numa tabacaria, ele é dobrado em dois ou tapado em parte por outros jornais, ficando mais visível a parte de cima da primeira página que inclui o nome da publicação. Daí que as notícias mais importantes sejam as que aparecem «above the fold», acima da dobra. Num jornal, o espaço é fortemente hierarquizado, o que é palpável nos preços de anúncio por página – quanto mais visível ou imediato, mais caro.

Quando se estuda design de jornais, essas hierarquias são apresentadas como momentos no tempo – o que o leitor vê em primeiro lugar, o que vê em segundo, e por aí adiante – quando são, acima de tudo, uma hierarquia de acesso – quem pode ler e por quanto, quem é o leitor comum e o leitor Premium. Já se sabe há muito que nem toda a gente que lê um cabeçalho na banca compra o jornal. Desde que existem jornais que notícias de segunda página deitam banhos de água fria em manchetes bombásticas de primeira página. No limite, calunia-se alguém na primeira página, publicando o desmentido na segunda. E, no caso da vítima recorrer aos tribunais, argumenta-se que, Senhor Doutor Juiz, a história está lá toda, a capa era só para chamar a atenção, um jornal precisa de fazer pela vida. Perdendo o caso, enterra-se o acto de contrição onde embarace menos.

Os truques são antigos. Com a internet, ganharam uma vida nova. Uma vida literal. Neste momento, é possível dirigir cirurgicamente campanhas de informação ou desinformação a pessoas ou grupos específicos. O caso Cambridge Analytica é o exemplo mais conhecido. Obtêm-se os gostos, os ódios e os hábitos de milhões de pessoas e depois cria-se informação feita por medida para que os algoritmos das redes sociais a guiem até ao alvo como um míssil teleguiado.

A isto acrescem os «apitos para cão». Pode-se conceber uma informação de modo a que pareça inocente à maioria das pessoas, mas carregue um significado distinto a grupos distintos. Os discursos de Trump ou de Bolsonaro estão carregado de termos que são ouvidos de modo muito diferente pelos seus apoiantes e por quem se lhes opõe. Da mesma maneira, um jornal online pode parecer completamente distinto a quem o assina e pode lê-lo na totalidade, ou a quem o consome de graça e só lê os títulos, pequenos resumos ou primeiros parágrafos. Para o leitor gratuito, um jornal toma a aparência de um banho de sensacionalismo populista, clickbait puro. Também aqui é possível caluniar na primeira página e, se preciso for, fazer a trafulhice de enterrar o desmentido nas caixas de comentários. Acontece todos os dias.

É importante que se fale das fake news. Elas não são um sintoma da ascensão dos populismos mas uma das suas causas principais. São o que existe de comum à conquista do poder democrático por parte de grupos de extrema direita. No Brexit, na eleição de Trump, nas eleições francesas e brasileiras, a proliferação de notícias falsas em plataformas como o facebook ou o whatsapp têm sido o fenómeno recorrente. Felizmente, já não se vê isso apenas como um efeito mas algo de novo e estrutural. O Diário de Notícias publicou neste fim de semana um conjunto de peças importantes sobre o assunto em Portugal, com o único defeito que se centrou sobre esforços artesanais. A produção de fake news é uma indústria que não capitaliza apenas com a credulidade dos leitores mas também da cupidez dos jornais que rapidamente encontraram modos de as capitalizar.

Não adianta dizer mal das fake news quando, por exemplo, se usam os velhos esquemas de hierarquizar a informação, mostrando lixo ao leitor comum, enquanto se reservam as notícias a sério a quem paga. O que fica é o lixo. Não adianta usar códigos deontológicos quando se escreve notícias quando não se aplica o mesmo às colunas de opinião e de crítica onde se podem publicar erros e mentiras, cuja correcção fica a depender dos caprichos do autor, sacudindo as redacções a água do capote. O rigor de um jornal também se avalia pela qualidade da sua opinião. Se é só opinião ou se é opinião sustentada.

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Filed under: Crítica

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