The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Geada

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Comove-me sempre ver campos cobertos de geada ao começo do dia. Eu sei. Dizem-me que a geada é nociva e pode arruinar as culturas. A neve também, mas tem uma imensa máquina de relações públicas a trabalhar por ela. Somos treinados desde o berço para gostar de neve, para a celebrar quando chega. As montras dos fotógrafos transmontanos enchem-se de registos de neve, a fazer vergar os ramos das árvores, sobre as pedras de um regato, nos canteiros dos jardins municipais.

Eu tinha uma tia-avó que não gostava nada de neve. Morreu centenária e lembrava-se com rancor das décadas que o Inverno transmontano era mais frio, em que a neve chegava ou passava o meio metro nas ruas. Era quase um terço do tamanho da minha tia. Odiava em particular um tipo de neve a que chamava buraqueira e que entrava pelas frinchas das telhas e se acumulava nos sótãos das casas. Antes do degelo, era preciso ir de pá e baldes retirá-la, não fosse alagar a casa e apodrecer as madeiras. Quando nós nos descaíamos e falávamos de neve como as crianças falam de neve, a minha tia dizia com a boca muito fechada que não gostava nada disso.

A geada, pelo contrário, ninguém gosta dela. Não enche as montras dos fotógrafos. Não há estúdios de efeitos especiais a investigar como renderizar uma boa paisagem coberta pela geada. Mas eu sinto a sua falta. É um pedaço de nostalgia por trás-os-montes que não se consegue resolver indo às compras. Não é uma alheira. Raramente aparece em fotos ou filmes.

Tenho muitas saudades assim de Trás-os-Montes. São saudades artesanais, feitas à mão e sem os materiais adequados, por mim mesmo, porque não as leio, nem as vejo em lado nenhum. Há uma maneira certa de escrever e de fazer imagens sobre Trás-os-Montes que não cobre quase nada das minhas memórias. O livro de J. Rentes de Carvalho sobre o nordeste é dos piores exemplos. Percebe-se-lhe uma alegria em aparar as partes que não são suficientemente transmontanas.

Reconheço uma obrigação de gostar e de saber certas coisas: os doces regionais, os caretos, os enchidos, a vinha, etc. Mas não deixa de ser uma obrigação. Sinto falta da urbanidade da província, de certo tipo de prédio pós-moderno que só se via por ali, do cimento carcomido no meio da erva húmida e do saibro. São coisas que tendem a ficar fora do enquadramento e que só vemos quando nos fazem depois falta.

Antes do sol bater, a paisagem é dos mesmos tons cinza que realçavam as textura e os emaranhados de suíças e barbas em certas provas fotográficas oitocentistas. Umas silvas cobertas de geada na berma granítica da estrada reclamam uma dignidade que as aproxima do retrato que Júlia Margaret Cameron tirou a John Hershel. Há uma afinidade, uma parecença de família entre os carvalhais geados e as barbas de Marx, Darwin ou William Morris. E quando o sol bate, é como se assistíssemos ao vivo à história das imagens, desde o preto à cor, e finalmente ao cinema e ao vídeo quando o movimento das pessoas e automóveis reanima por fim o mundo.

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Do Que os Homens São

Das decisões que tomei, as maiores são como sopros, ventos que atravessam, que desfazem as palavras, as que dizemos e as que ouvimos. Só com o tempo é possível nomeá-los.

Num jantar em Lisboa perto do intendente ouvi do outro lado da mesa uma conversa que me nomeou um desses sopros, uma dessas decisões do nosso tamanho. Alguém falava da década de oitenta, de como era jovem, numa periferia qualquer, e de como praticamente toda a gente que conhecia se drogava de um modo ou de outro. De como muitos tinham morrido. Enunciou os nomes, ao que as outras pessoas responderam com outros nomes. Nada de novo. Também tinha os meus nomes. Também me lembro dos tempos da escola e dos colegas que fumavam, injectavam e tantas outras coisas. Mas ele continuou, disse que não tomar parte daquilo se tinha tornado numa questão identitária, crucial. Uma resistência. Não se resistia com um vazio mas com algo que o ocupava. Reconheci ali a minha própria resistência sem nome. Apesar de todas as pressões, fui resistindo. Sem uma moralidade ou sequer argumentos sobre a saúde. Sem impôr a minha decisão a outros. Se era tabaco ou charros, dizia quase sem mentir que era a bronquite. Só ali, à espera dos cafés numa tasca de Lisboa, enquanto os outros fumavam lá fora, é que encontrei um nome para uma parte de mim, que até aí era só uma torção física, um movimento.

Há tanta coisa assim sem nome. A primeira parte das nossas vidas é assim, sopros que só ganham palavras muito depois. Toda a dolorosa construção que é aprender a ser homem é talvez o maior desses ventos. Aprende-se através de piadas, de histórias, de rituais, de obrigações. de agressões, de nomes atirados em todas as direcções, nomes que não se percebe. O «paneleiro» que se atira a outro é uma coisa nebulosa que não se percebe. Talvez venha a consciência muito depois que é o uso aberto, público, desses nomes que define a masculinidade tradicional. O homem, o macho, é o único que pode dar esse tipo de nome. De quem os recebe, espera-se a luta ritual ou real, ou o silêncio. Aprende-se uma certa relação com as mulheres, que se não for cumprida é uma derrota, uma vergonha. Aprende-se.

A construção da identidade masculina é uma subcategoria de bullying. Se calhar até é o bullying quase todo. E desde então que lhe tento resistir pior ou melhor, mesmo quando ainda não tinha um nome para essa resistência. Penso muitas vezes que seria muito fácil ter-me tornado num misógino ressentido, a queixar-se da ditadura do politicamente correcto. Tive sorte. A identidade masculina dominante era algo que não me era confortável. Não sei porquê. Se calhar porque na minha família há mais mulheres. Se calhar por o meu pai ter sido criado por mulheres. Não sei.

Tenho a convicção que dos maiores problemas actuais é acreditar-se que se pode apagar a identidade masculina dominante sem erigir nada em sua substituição. Acredita-se que se pode dispensá-la. É esse vazio que os extremismos têm vindo a ocupar, nem digo apenas a alt-right, mas também a direita «clássica», o novo fundamentalismo islâmico, etc. Tudo marcado por uma misóginia identitária que deveria ser um alerta muito forte.

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Pessoas não são Alheiras

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Mais de uma pessoa me perguntou se já tinha lido «Trás-os-Montes, o Nordeste». Queriam saber o que eu pensava, sendo eu um Transmontano. Depois de o ler, percebi que se calhar até nem era, de acordo com os critérios apertados de Rentes de Carvalho. Nasci e vivi em lisboa até mais ou menos aos oito. Mudei-me para Vila Real, onde não tinha família ou amigos. Vim estudar para o Porto aos dezoito. Aos vinte e dois, odiava Vila Real e Trás-os-Montes em geral. Com uma energia negativa persistente, que agora até me espanta. Era mais intensa que a revolta de um adolescente contra os pais. Só começou a desacelerar aos trinta, muito devagar, com a inércia de um comboio sem travões ao qual se desligou o motor como último recurso. Agora, gosto. Dou passeios. Faço romarias aos sítios. Insisto em comer covilhetes e napoleões. Tenho a mesma inflexibilidade de um stalker do Tarkovski numa incursão à Zona – que é dizer, comporto-me como um turista, a paisagem é bonita, as pessoas fazem parte daquela parte da paisagem que nos abalroa se não tivermos cuidado. Percebi que não é só o amor, o sangue ou o contexto em que saímos da nossa mãe que nos une a um sítio. O ódio e a irritação são também bons combustíveis. E quando queimam até ao fim, a indiferença que sobra também funciona. Prefiro-os à condescendência provinciana de Rentes de Carvalho.

É um livro escrito por um bom escritor, embora não bem escrito, que tem um cuidado deliberado, carinhoso, de não escrever nada de novo, interessante ou substantivo. O seu propósito é trilhar o familiar e o tradicional, concluindo que apesar do progresso, do passar do tempo, ainda está tudo no seu devido lugar. O que quero dizer é que se aquela região fosse um filme, o livro de Rentes de Carvalho seria uma peça perfeitamente decente de fan-fiction. Como tal, todas as transgressões, todas as reviravoltas e inversões, acabam por ser epidérmicas. A fan-fiction é um género conservador. Dê-se as voltas que se dê, fica-se no sítio onde se começou. A própria linguagem e vocabulário soam mais a escritor que decidiu escrever sobre Trás-os-Montes do que a transmontano. É bucólica. Há regatos. Há palha. Há maleitas. Há caciques. Não há, deliberadamente, cidades. Bragança fica de fora porque é cidade a sério e não província.

Disserta-se do carácter do transmontano, da sua fisionomia, das suas tradições, do seu passado, da sua pobreza, das suas mulheres. Pede-se desculpa, muitas vezes. Pede-se desculpa pelas generalizações, antes de diagnosticar o transmontano como uma condição genética, e lamentar que, nas novas gerações, se distingue cada vez menos o homem do norte do algarvio. Pede-se desculpa às feministas, antes de descrever a mulher típica transmontana, que recebe com resolução e criatividade pancada do marido. E lamenta-se que, nas novas gerações, se distingue cada vez menos a mulher do norte da algarvia. É tudo dito de um modo muito delicado e num vocabulário pastoral. Tudo é educadamente conservador. Cai no erro básico de atribuir ao objecto as limitações que são os do próprio escritor. É como ouvir um médico ou um professor que pensa que ajuda falando sobre si próprio.

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Contracosta

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Devíamos ter medo dos livros que têm uma única, imensa ideia, levada até ao fim, e que depois disso se levanta e se atira até outro fim, e outro fim ainda, até que não há nada a esperar e, mesmo assim, a ideia avança, já sem nós, em direcção a fins mais luminosos e vêmo-la a ir, a desaparecer, agradecidos por a termos acompanhado, sossegados porque nos pousou, atordoados, sem outro dano que não o espanto. É assim com o assombroso western In The Distance. Li-o no Verão, de um folêgo.

A ideia é simples e única. No século XIX, uma criança sueca perde-se do irmão no cais de embarque para o Novo Mundo. Sabe que devia ir para Nova Iorque mas vai parar a São Francisco. Pouco sabe da língua, pouco sabe do sítio, pouco sabe do que quer que seja – é uma criança, uma versão avessa do Menino Selvagem, abandonado não entre os animais mas os humanos. Decide procurar o irmão e o grande achado do livro é a sua viagem, feita contra a corrente migratória que colonizava o Oeste. O seu ponto de partida é o ponto de chegada. E é contra isso, contra o Oeste como destino, que Hakan avança, ganhando tamanho, tornando-se um gigante, como se alimentado pelo atrito da história.

Encontra arquétipos: o garimpeiro enlouquecido pelo ouro, a Madame, o cientista que se perde à procura da validação da sua grande teoria, o curandeiro índio, a caravana, o herói. Mas são encontros mínimos, violentos e trágicos. A viagem de Hakan é solitária, tangente a tudo, distante de tudo, um homem que se arrasta contra a direcção torrencial da América, contra o sentido das suas multidões, da sua histórias.

Hernan Diaz escreveu o livro em Nova Iorque, sem ter visitado os sítios sobre os quais escrevia. É como se tivesse atirado o seu personagem para longe, como um animal que insiste em voltar a casa sem que o seu próprio dono – não, o seu próprio criador – saiba o caminho de volta, saiba dizer-lhe sequer como voltar. Dotou-o de um instinto migratório e de um território voltados um contra o outro, em direcções opostas.

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Uma História que se Repete com o Tempo

Os três homens dos olhos de chumbo moviam-se síncronos, como se um fio os ligasse. É assim que o argumentista Hector German Oesterheld descreve os vilões na primeira história de Mort Cinder (1962). A frase repete-se como uma fórmula, como uma maldição, quando os três homens entram em cena, quando se viram, quando reagem com a lentidão dos mortos vivos ou dos autómatos.

Demorei décadas a ler Mort Cinder o suficiente para lhe apreciar o enredo. Conheci-o através de painéis isolados nos artigos críticos da revista Tintin. Sem dúvida por influência da Pop, estava na moda ilustrar ensaios sobre banda desenhada através de desenhos cortados do resto, tornados em pequenos quadros de Liechtenstein. O traço arisco, contrastado, de Breccia vivia bem assim, resumido e encaixilhado. Eu, que queria desenhar como ele, percorria esses painéis dispersos como um arqueólogo que viaja por museus e colecções para ver os fragmentos de uma mesma estátua. Perdia-se o encadeamento, o ritmo, a história.

Com o tempo, fui apanhando exemplos do trabalho de Breccia no seu todo, embora não Mort Cinder. Era um mestre do ritmo, da repetição. Por vezes, reproduzia um mesmo desenho, desdobrando-o por páginas com mudanças mínimas (The Tell Tale Heart) – um efeito típico dos desenhadores experimentais da época. O norte-americano Bernard Kriegstein tinha-o tentado, poucos anos antes, em Master Race (1955), repetindo fatias do mesmo desenho para dar o movimento de uma carruagem de metro que se imobiliza.

Era um uso criativo dos processos de fotocomposição com que se reproduzia e retocava a banda desenhada da altura. Assim, as histórias de Breccia assumiam-se como uma colagem, não apenas de pedaços de fotolitos mas de referências formais. O seu desenho era um herdeiro distante dos expressionistas mas também da história do formalismo. Nas suas figuras a oscilar entre a segunda e a terceira dimensão encontramos o rasto de Ludwig Hohlwein, de Klimt e antes dele da Mulher de Branco de Whistler que escandalizou o público dos Salons novecentistas pela sua bidimensionalidade.

Isto é o que se pode saber vendo as histórias sem as ler.

Há um problema com os clássicos que, por serem incontornáveis se vão adiando – mais tarde ou mais cedo lá chegaremos. Há outro problema, na verdade um preconceito, com a banda demasiado bem desenhada, que o argumento acabe por não lhe estar à altura. As palavras tornam-se ilustração e pretexto para o desenho. E por isso fui adiando a leitura de Mort Cinder.

Mas Oesterheld é um grande argumentista. Os estratagemas formais de Breccia encontram uma contrapartida à altura nos ritmos e repetições de Oesterheld, não um eco mas algo igualmente forte e complexo, do lado de lá, do lado das palavras, uma sabedoria no modo como os quadradinhos podem funcionar como cesuras, continuidades rítmicas que não são bem as mesmas da poesia. Mort Cinder trata de coincidências, trata de tempo, do modo como a imortalidade do protagonista afecta o que vai tocando, como um projéctil sobrenatural atravessando a História e deixando ecos, repetições, desdobramentos. É a união perfeita de uma escrita e de um desenho, não apenas no enredo e no estilo mas em todos os pormenores, de cima a baixo. É a banda desenhada como devia ser sempre, como a sentimos em sonhos.

Encurralado atrás de uma lápide a dois passos de zombies que se ocupam a profanar uma sepultura, um dos protagonistas maravilha-se com as nervuras de uma folha caída. Oesterheld ocupa assim, por um ou dois painéis, um dos melhores desenhadores de sempre, cujo talento, cujo carisma, é o de nos manipular atenção de nos fazer crer que aquilo faz sentido e vale a pena. E claro que vale.

Adio um pouco mais, com a escrita deste texto, o fim da leitura. Oesterheld morreu, torturado e apagado pelo regime de Videla. Breccia também já se foi, com uma idade Oliveiresca. Diz-se que ainda lia bd com ânsia pela próxima página, como se fosse um jovem. Uma carreira de quase um século não lhe estragou o gosto. Não quero acabar de os ler. Deixarei talvez o que sobra como uma reserva.

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico.

Autor do livro O Design que o Design Não Vê (Orfeu Negro, 2018). Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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