The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Uma História que se Repete com o Tempo

Os três homens dos olhos de chumbo moviam-se síncronos, como se um fio os ligasse. É assim que o argumentista Hector German Oesterheld descreve os vilões na primeira história de Mort Cinder (1962). A frase repete-se como uma fórmula, como uma maldição, quando os três homens entram em cena, quando se viram, quando reagem com a lentidão dos mortos vivos ou dos autómatos.

Demorei décadas a ler Mort Cinder o suficiente para lhe apreciar o enredo. Conheci-o através de painéis isolados nos artigos críticos da revista Tintin. Sem dúvida por influência da Pop, estava na moda ilustrar ensaios sobre banda desenhada através de desenhos cortados do resto, tornados em pequenos quadros de Liechtenstein. O traço arisco, contrastado, de Breccia vivia bem assim, resumido e encaixilhado. Eu, que queria desenhar como ele, percorria esses painéis dispersos como um arqueólogo que viaja por museus e colecções para ver os fragmentos de uma mesma estátua. Perdia-se o encadeamento, o ritmo, a história.

Com o tempo, fui apanhando exemplos do trabalho de Breccia no seu todo, embora não Mort Cinder. Era um mestre do ritmo, da repetição. Por vezes, reproduzia um mesmo desenho, desdobrando-o por páginas com mudanças mínimas (The Tell Tale Heart) – um efeito típico dos desenhadores experimentais da época. O norte-americano Bernard Kriegstein tinha-o tentado, poucos anos antes, em Master Race (1955), repetindo fatias do mesmo desenho para dar o movimento de uma carruagem de metro que se imobiliza.

Era um uso criativo dos processos de fotocomposição com que se reproduzia e retocava a banda desenhada da altura. Assim, as histórias de Breccia assumiam-se como uma colagem, não apenas de pedaços de fotolitos mas de referências formais. O seu desenho era um herdeiro distante dos expressionistas mas também da história do formalismo. Nas suas figuras a oscilar entre a segunda e a terceira dimensão encontramos o rasto de Ludwig Hohlwein, de Klimt e antes dele da Mulher de Branco de Whistler que escandalizou o público dos Salons novecentistas pela sua bidimensionalidade.

Isto é o que se pode saber vendo as histórias sem as ler.

Há um problema com os clássicos que, por serem incontornáveis se vão adiando – mais tarde ou mais cedo lá chegaremos. Há outro problema, na verdade um preconceito, com a banda demasiado bem desenhada, que o argumento acabe por não lhe estar à altura. As palavras tornam-se ilustração e pretexto para o desenho. E por isso fui adiando a leitura de Mort Cinder.

Mas Oesterheld é um grande argumentista. Os estratagemas formais de Breccia encontram uma contrapartida à altura nos ritmos e repetições de Oesterheld, não um eco mas algo igualmente forte e complexo, do lado de lá, do lado das palavras, uma sabedoria no modo como os quadradinhos podem funcionar como cesuras, continuidades rítmicas que não são bem as mesmas da poesia. Mort Cinder trata de coincidências, trata de tempo, do modo como a imortalidade do protagonista afecta o que vai tocando, como um projéctil sobrenatural atravessando a História e deixando ecos, repetições, desdobramentos. É a união perfeita de uma escrita e de um desenho, não apenas no enredo e no estilo mas em todos os pormenores, de cima a baixo. É a banda desenhada como devia ser sempre, como a sentimos em sonhos.

Encurralado atrás de uma lápide a dois passos de zombies que se ocupam a profanar uma sepultura, um dos protagonistas maravilha-se com as nervuras de uma folha caída. Oesterheld ocupa assim, por um ou dois painéis, um dos melhores desenhadores de sempre, cujo talento, cujo carisma, é o de nos manipular atenção de nos fazer crer que aquilo faz sentido e vale a pena. E claro que vale.

Adio um pouco mais, com a escrita deste texto, o fim da leitura. Oesterheld morreu, torturado e apagado pelo regime de Videla. Breccia também já se foi, com uma idade Oliveiresca. Diz-se que ainda lia bd com ânsia pela próxima página, como se fosse um jovem. Uma carreira de quase um século não lhe estragou o gosto. Não quero acabar de os ler. Deixarei talvez o que sobra como uma reserva.

Filed under: Crítica

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