The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Ano Zero

Já tínhamos ido ao hospital por causa das contracções mas mandaram-nos para casa. À segunda, ficámos. Na sala de espera, sozinho depois da Susana entrar, esperei, rodeado de fotos gigantes de bebés, cada um com o seu nome e a sua data. As enfermeiras ensinaram-me um caminho complicado para a casa de banho dos pais que passava por detrás dos quartos, uma passagem secreta, estreita entre uma parede vazia e janelas altas por onde viam os parques de estacionamento vazios e mais longe as formas eriçadas de triângulos dos pinheiros. Ensinaram-me também outras coisas que entretanto esqueci, e disseram-me muitas vezes que agora era esperar. Tinha tanto sono das noites de contracções que adormeci numa cadeira. Sempre que nos disseram que agora era esperar, alguma coisa acontecia e o processo acelerava. Chegaram-me a mandar embora para casa para segundos depois me dizerem que as águas tinham rompido, que já se via o cabelo. Que era agora. E foi. Saiu num instante, inteira, sem transição, como um objecto a aparecer de esticão num filme mudo. Embrulharam-na num pano verde e encostaram-na entre uma mesa e a parede, a chorar, a chorar. Um ano atrás começava a maior noite do ano durante a qual havia de nascer a Rosa, tão pequenina.

Quando apareceram no facebook as primeiras imagens do vestido, eu vi-o em listas negras sobre fundo azul, mas descobri que vendo-o no monitor inclinado do portátil, a apanhar o máximo de reflexos, ele ficava dourado sobre fundo branco. Também acontecia o mesmo se visse apenas uma pequena faixa de cada vez. Ao fim de umas tantas vezes, já não o conseguia ver em azul e negro. Nunca mais consegui. Com a Rosa foi o mesmo, deslizei para um novo modo de percepção. Foi como se o que era fundo numa vida anterior se tivesse tornado figura. Passei a ver os filmes de adolescente sob o ponto de vista do pai. Comove-me ver bebés.

Penso muito no About Time, um dos piores filmes do Richard Curtis, o do Quatro Casamentos e Um Funeral, sobre um homenzito que descobre que lhe basta querer para voltar atrás no tempo. Graças a esse dom, vai conquistando por tentativa e erro, muitas tentativas e erros, mulheres, até que encontra a certa. Irritou-me que fosse um talento herdado apenas pelas homens da família, que as mulheres fossem apenas peões passivos, ignorantes, daquele jogo. Havia porém um detalhe pungente: uma vez tendo filhos, não se podia alterar o passado antes do seu nascimento porque se corria o risco de voltar ao presente e ter um filho diferente, resultado de uma combinação distinta de espermatozóide e óvulo. Ou nem existir de todo.

Um mau filme que apanhava bem um único e grande pormenor. Depois dos filhos, o passado já é só e realmente o passado. Penso muito nele, nos meus tempos de escola, da primária, do ciclo, do liceu, mas vejo-me a mim mesmo com os olhos de um pai, tal como vejo os meus primeiros colegas, os meus primeiros amores. Vejo-me como um filho.

Sim, é nisto tudo que penso ao entrar na segunda noite mais longa desde que ela nasceu. Penso no ano que passou. Só faz anos amanhã, mas faz mais sentido escrever isto agora, quase no fim do primeiro ano, do ano zero. Amanhã será outro.

Filed under: Crítica

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