The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Percorrer a dor em banda desenhada

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Faz parte de ser pai uma extensa colecção de medos, o maior deles a morte dos filhos.

Já não faço banda desenhada há muito tempo, mas ainda me interesso por teoria, em especial livros que ensinam a conceber argumentos. Fiquei muito feliz quando encontrei o livro «The Art of the Graphic Memoir: Tell Your Story, Change Your Life» (2018). Comprei-o de imediato. Conheci o seu autor Tom Hart num Salão de Banda Desenhada do Porto, ainda na década de noventa. Ele veio num grupo associado à editora Black Eye (salvo erro), que incluía Jason Lutes e Jessica Abel. Já era fã de todos eles em especial do Tom. Trocámos desenhos, saímos à noite. Eu estava em trabalho, eles também, mas foi das coisas mais próximas que tive daquelas férias que se tem quando se é adolescente e se lembram para sempre.

«The Art of the Graphic Memoir» é uma espécie de making of pedagógico de «Rosalie Lightning» (2016), a história que ele escreveu e desenhou sobre a morte súbita da sua filha, com pouco menos de dois anos em 2011. Hart nunca tinha feito histórias autobiográficas, esta foi a primeira, a maneira que encontrou de lidar com a pior das tragédias. Demorei dias a decidir-me a lê-la. É muito difícil enfrentar esse medo, mesmo quando é ficção, mesmo quando acontece a outros. É um terror supersticioso, dos piores.

Li-o apenas porque o conheci. De outro modo, ser-me-ia impossível. No fim, não me arrependi. Uma vez que se decida começar, vale a pena terminá-lo. Tem que se terminá-lo. É sobre o percurso de um luto e é também, em si mesmo, um objecto de luto. Passa-se por momentos terríveis mas chega-se ao fim e sente-se a serenidade possível, a aceitação possível.

É a tentativa de encontrar uma causa e um sentido na morte repentina, arbitrária de uma criança de dois anos, um ser humano que está no limiar da linguagem que percebemos e nos percebe de um modo primordial, mas que deixa tantas coisas de fora. Quando não há um aviso, conclui Hart, tudo pode ser e não ser um aviso. Uma frase repetida dias antes que não se sabe o que queria dizer. Uma última foto. Não me lembro de nada antes dos meus dois, três anos. É terrível imaginar uma vida inteira ali, nesse ponto cego da memória. Esta memória gráfica é também isso, uma tentativa de lembrar essa pequena vida.

Quando o conheci, Tom fazia as suas bds enquanto guardava um parque de estacionamento à noite. Não conseguiu sair dessa precariedade estes anos todos. Esta é a história de um luto prostrado em sofás de casas de amigos, transportado em carros emprestados com maus radiadores, pago com multibanco com o fundo das contas.

É um objecto que não quero resumir, cheio de momentos enormes, terríveis, descritos com uma certeza e uma delicadeza que nos deixam a tremer. Um objecto sem oportunismo, sem falsos sentimentos.

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Filed under: Crítica

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