The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Brexit e Trump, Dois Pesos e Duas Medidas

Quando foi do referendo do Brexit, que aconteceu logo a seguir à crise europeia, confesso que não tinha (e ainda não tenho) grande fé na Europa. Num referendo semelhante, eu só votaria para ficar na Europa por medo do que nos poderia acontecer na economia, porque estar na Europa ainda era, e é, algo que mete medo. Agora, votaria com mais certeza para ficar mas continuaria a ser por medo. Já não da economia mas de outros sustos.

Daí que compreenda o que levou muita gente de esquerda a não gostar da Europa, inclusive o Corbyn ou o PCP por aqui. Não acho, como muita gente acha, que o voto no Brexit tenha sido só xenófobo mas houve muito voto anti-europeísta – coisas distintas, que era boa política saber distinguir. O que se percebeu com a discussão em torno do Brexit é que criticar a Europa tornou-se para muita gente de esquerda inaceitável.

Curiosamente, as mesmas pessoas que dizem que votar contra a Europa é xenófobo já dizem que votar em Trump é um voto motivado por questões laborais e ansiedades económicas, e que devíamos esquecer o racismo e a xenofobia (em nome de ganhar eleições). Acho que há muito má consciência, muita hipocrisia e tacticismo de meia-tigela à esquerda.

O meu ponto é que houve um duplo standard na reacção de certa esquerda ao Trump e ao Brexit. As mesmas pessoas que assumiram desde logo e sem mais a xenofobia do voto no Brexit já estavam pouco tempo depois a dizer que se devia perceber «as verdadeiras motivações» de quem votou no Trump.

Ora, vendo friamente, é bastante mais plausível ver motivações complexas num referendo sobre a Europa, que pode realmente ter as tais ansiedades de classe e económicas, do que na eleição de Trump, que vinha com uma agenda explicitamente racista, xenófoba, machista, etc., que tinha um estratega nazi (Bannon), etc.

O referendo sobre a permanência na Europa, por mais que tivesse sido badalado pela ultra-direita inglesa permitia outras motivações. Na altura, houve uma série de depoimentos sobre gente que votou contra a Europa por questões de economia, de emprego. Posições muito próximas das do PCP aqui. Também li gente que votou no Brexit contra as políticas de imigração da Europa, não no sentido de serem abertas mas demasiado restritas.

O que acho curioso foram as maneiras retorcidas como se tentou ver isto como um voto xenófobo – o que não aconteceu com o Trump. Pela minha parte, acho que o trabalhismo de Corbyn esconde muita grunhice mascarada de preocupações económicas e de classe. Há muita luta contra o neoliberalismo que disfarça racismo, homofobia, anti-semitismo, chauvinismo, etc. Basta ver os que criticam o feminismo ou as reinvidicações LGBT apenas porque os vêem como neoliberais – não porque o sejam, mas apenas porque não dão jeito.

Deveria haver mais cuidado em perceber que há causas e motivações complexas, mesmo quando se trata do voto xenófobo. Todo o cuidado que se tem em entrevistar grunhos de bonés vermelhos em diners na rust belt pura e simplesmente não existiu no referendo do Brexit. Houve uma diabolização instantânea de quem votou para sair. Quem quer que exprimisse a menor dúvida em relação à Europa ou ao projecto europeu era logo apelidado de xenófobo, e isso aconteceu aqui mesmo em Portugal.

No dia seguinte ao referendo, houve um colectivo grito de «xenófobos e racistas». Tive discussões gigantescas só por ter chamado a atenção que havia votos minoritários contra a Europa mas cuja motivação era económica, laboral.

Pelo contrário, em relação aos Estados Unidos ainda há uma corrente muito forte, associada ao Bernie Sanders, que acha que não se deve alienar os eleitores chamando-lhes racistas, xenófobos, etc. Encontra-se isso em gente como o Mark Lilla, liberais que denunciam o politicamente correcto, etc. Que criticam as identity politics e as tentam colar a Hillary, que vêem o feminismo e o activismo lgbt como um desvio de atenção do que interessa verdadeiramente que é a luta de classes, a única coisa que unificará a esquerda, blá, blá.

Desconfio que a maneira como essas ideias se engancham aqui em Portugal tem muito que ver com experiências da diáspora em cada um dos países: em Inglaterra, o imigrante português é o tipo estrangeiro do sul da Europa que vem roubar empregos. Ou seja, em Inglaterra o português é alvo da xenofobia. Nos Estados Unidos, a emigração portuguesa teve uma longa luta a distanciar-se de negros e latinos. Tornou-se, para todos os efeitos, branca e portanto, mesmo quando vota democrata, tende a votar como a classe operária branca.

(Este é um texto construído a partir de comentários a um post no muralRaquel Ribeiro, respondendo a alguns comentários do Ricardo Noronha. Fiz esta espécie de frankenstein para não me esquecer do que tinha escrito, não para isolar isto da discussão que o motivou.)

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Filed under: Crítica

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