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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Uma lista de listas sem Quase Nada

Nesta altura do ano, os críticos fazem listas do que gostaram no ano. Eu pela minha parte faço listas dos críticos que gostei de ler este ano. Sou um grande fã do ensaio crítico.
 
E não, não me consigo lembrar de quase nada que tenha gostado de ler na imprensa portuguesa, quase nada que me tenha parecido fresco na forma, no tratamento ou no assunto. Pode ser que me tenha escapado alguma coisa e aceito sugestões, em particular na área da literatura, da arquitectura, da arte ou do cinema. Não li nada sobre design que me tenha ficado.
 
Do que gostei? Leio o André Tavares sobre arquitectura. Da revista Electra em geral, um serviço exemplar de António Guerreiro, e de um ensaio do Pedro Levi Bismarck sobre turismo. Não é bem crítica, tal como não são bem crítica os artigos do André Barata, de que também gosto. Espero os posts do facebook do Bruno Baldaia como se fosse um assinante. É o pouco que me vai ficando.
 
Da crítica propriamente dita, acho que por aqui se tornou uma formalidade. Parece aquele discursos que os presidentes da junta repetem qualquer que seja a ocasião. Só mudam alguns substantivos, o resto fica tudo igual. E quase que se diz, «ainda bem». Porque quando a crítica arrisca, enche o peito e se acha dura, fica à vista a imensa preguiça mental, o agressivo conformismozinho.
 
Não há indício maior dessa preguicite agressiva, dessa vontade de não pensar, do que a constante invocação da ameaça do «políticamente correcto». Só esta semana no Expresso, e sem andar à procura, contei gente a rezingar contra o politicamente correcto por duas vezes. É uma maneira delicada, elíptica, politicamente correcta, de rezingar contra os que acham que vale a pena discutir a igualdade de género, entender a literatura escrita por afro-descendentes nos seus próprios termos, não gozar com ciganos ou homossexuais em nome da tradição.
 
É uma má vontade contra perceber que os critérios estéticos mudam e ainda bem que mudam. A crítica portuguesa acomodou-se ao seu papel tradicional de guarda alfandegário. Pratica o que pensa ser divulgação quando na verdade é um sistema de filtragem. É um espectáculo triste ver quase tudo o que se produz de mais interessante e vital ser carimbado de politicamente correcto. E o que passa, o que tem que passar, ser reinterpretado de acordo com os critérios ultrapassados , rançosos do lugarelho.
 
Em contraponto, para quem queira uma crítica inventiva e celebratória, basta ler a New Yorker ou o New York Times. São dezenas de formas, de formatos, de estilos, de ideias. Um dos ensaios que mais gostei de ler este ano apareceu na New York e era uma apreciação da banda de prog rock Yes sob a forma de uma carta de resposta a um leitor deprimido. Dos formatos que me dá mais gozo ler são os recaps, as anotações que se faz a séries de televisão e que, quando são bem feitas, nos aumentam o prazer de espectador. Por aqui, não há nada disso, nem pode haver.
 
Enquanto nunca se fez tanta crítica interessante, combativa, progressista, aqui carpe-se o fim da crítica, garante-se que se vive num período pós-crítico porque se leu isso num livro qualquer há dez anos. É uma tristeza.
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Filed under: Crítica

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