The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Contra a barra de progresso

Tinha uma professora que me dizia que, quando se escrevia uma crítica, se devia dizer quem era o artista, qual o contexto e não me lembro de mais nada. Tentei nunca seguir essa ou outras «listas de compras». Tenho tiques de estrutura a escrever, claro, que preferia não ter. Sempre que possível, tento identificá-los e eliminá-los. É difícil. Mas prefiro esses clichés inadvertidos aos que se praticam de propósito, que se ensinam como se fossem coisas sérias.

Fico com uma boa dose de inveja de The Earth Dies Streaming, porque é bem escrito, porque cada recensão, das pequenas às maiores, é sumarenta e vibrante. Antes de ler não se sabe onde o crítico quer chegar, nem como vai lá chegar. Usa referências teóricas e sabe a sua história mas não as emprega por norma, apenas quando fazem sentido, quando são necessárias. A História do Cinema é tão depressa invocada ou descartada como um sonho, como a descrição de uma sessão de cinema, como uma anedota pessoal ou um mito. É uma escrita frondosa mas económica, onde mesmo meia dúzia de linhas dizem muito mais do que seria razoável esperar de tão pouca coisa.

Por comparação, a maioria da crítica lê-se como um formulário preenchido, que tem sempre a mesma duração, a mesma estrutura, as mesmas intenções ou os mesmos critérios.

The Ballad of Buster Scruggs, o último filme dos irmãos Cohen, lembrou-me até que ponto ando viciado em barras de progresso, um hábito derivado de assistir a filmes no computador. Saber quanto falta para terminar é um grau zero de spoiler, é algo que nos sossega um pouco, talvez demais. Um volte-face a uma hora do fim dificilmente será definitivo. A barra de progresso é um indicador da nossa falta de tempo, do nosso tempo formatado, e aparece em todo o lado. Um romance lido no kindle tem a sua barra de progresso, um ensaio no medium anuncia-nos o tempo estimado de leitura. A Balada de Buster Scruggs, usando o formato velhinho da antologia temática de pequenas narrativas, baralha-nos as expectativas. Sabe-se que as histórias vão terminar mal, mas nunca se sabe como ou quando se vai chegar ao triste fim. Fantasiei até que seria interessante rodear um filme de pseudo-imagens, de outros filmes, de modo que o espectador nem avançando com o rato sobre a barra de progresso soubesse o que vinha para a frente ou quando o filme terminava. Havia uma estratégia semelhante quando se importavam livros proibidos durante o período da inquisição em Portugal. Disfarçava-se uma obra, compondo-a dentro de outra, com uma falsa introdução e conclusão.

A crítica de Hamrah com as suas oscilações de formato, de temática e de método tem o efeito semelhante de apanhar o leitor desprevenido, de não lhe dar uma lista de compras. É o tipo de escrita que só muito dificilmente será plagiada num trabalho de escola, porque não responde a perguntas concretas, não dá estrelinhas, tem a sua própria agenda a cumprir. Vale a pena segui-la nos seus próprios termos.

Fico com uma boa dose de inveja de The Earth Dies Streaming, porque é bem escrito, porque cada recensão, das pequenas às maiores, é sumarenta e vibrante. Antes de ler não sabe onde o crítico quer chegar, nem como vai lá chegar. Usa referências teóricas e sabe a sua história mas não as emprega por norma, mas apenas quando fazem sentido, quando são necessárias. A História do Cinema é tão depressa invocada ou descartada como um sonho, como a descrição de uma sessão de cinema, como uma anedota pessoal ou um mito. É uma escrita frondosa mas económica, onde mesmo meia dúzia de linha dizem muito mais do que seria razoável esperar de tão pouca coisa.

Por comparação, a maioria da crítica lê-se como um formulário preenchido, que tem sempre a mesma duração, a mesma estrutura, as mesmas intenções ou os mesmos critérios.

The Ballad of Buster Scruggs, o último filme dos irmãos Cohen, lembrou-me até que ponto ando viciado em barras de progresso, um hábito derivado de assistir a filmes no computador. Saber quanto falta para terminar, é um grau zero de spoiler é algo que nos sossega um pouco, talvez demais. Um volte-face a uma hora do fim dificilmente será definitivo. A barra de progresso é um indicador da nossa falta de tempo, do nosso tempo formatado, e aparece em todo o lado. Um romance lido no kindle tem a sua barra de progresso, um ensaio no medium anuncia-nos o tempo estimado de leitura. A Balada de Buster Scruggs, usando o formato velhinho da antologia temática de pequenas narrativas, baralha-nos as expectativas. Sabe-se que as histórias vão terminar mal, mas nunca se sabe como ou quando se vai chegar ao triste fim. Fantasiei até que seria interessante rodear um filme de pseudo-imagens, de outros filmes, de modo que o espectador nem avançando com o rato sobre a barra de progresso soubesse o que vinha para a frente ou quando o filme terminava. Havia uma estratégia semelhante quando se importavam livros proibidos durante o período da inquisição em Portugal. Disfarçava-se uma obra, compondo-a dentro de outra, com uma falsa introdução e conclusão.

A crítica de Hamrah com as suas oscilações de formato, de temática e de método tem o efeito semelhante de apanhar o leitor desprevenido, de não lhe dar uma lista de compras. É o tipo de escrita que só muito dificilmente será plagiada num trabalho de escola, porque não responde a perguntas concretas, não dá estrelinhas, tem a sua própria agenda a cumprir. Vale a pena segui-la nos seus próprios termos.

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Filed under: Crítica

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