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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

10 Anos

Vai fazer dez anos que saiu o Design em Tempos de Crise. Foi aqui no Porto no dia mais frio do ano. Nevou com abundância. O lançamento foi no Passos Manuel. A primeira edição, que tinha uma borda vermelha e moedas entre as páginas, esgotou em menos de um mês. A segunda, borda verde-azul, notas de banco entre as páginas, poucos meses depois.

Dez anos depois, a crítica de design em Portugal continua miserável, à beira da extinção. Nunca se escreveu tanto sobre design mas o que aparece é absorvido pelo meio fechado da academia e ali desaparece, sem nenhuma divulgação. Ao contrário da Arte ou até do cinema que têm sabido criar projectos de crítica, escrevendo de propósito ou absorvendo produção académica, o design pouco ou nada consegue produzir de comentário.

As revistas que havia, como a Pli, acabaram. A Modes of Criticism é um exemplo solitário, embora o seu âmbito seja mais internacional e cosmopolita do que local.

Os que faziam crítica há dez anos dedicam-se ao comissariado, acompanhando uma tendência geral. Fazem-se exposições onde antes se escrevia. Alguns espaços nos jornais, mais de divulgação que de crítica, como o de Guta Moura Guedes no Expresso, funcionam num modelo de comissariado, apresentando uma selecção comentada de objectos, quase uma pequena exposição.

A maioria da pouca crítica feita nos jornais a objectos de e sobre design acompanha também a tendência geral para ser produzida por gente que também escreve sobre mais assuntos. Não é muito diferente da crítica de música, de cinema, de literatura ou até de arte. Em geral, não deixa as coisas em pior estado do que já estão. Em outros, consegue acumular todos os piores defeitos da crítica e jornalismo actuais (conservadorismo de conteúdo, desactualização da forma, metodologias obsoletas, desprezo pelo rigor, uso ostensivo da crítica como arma de arremesso ou de silenciamento) e junta a isso todos os defeitos do discurso menos interessante e actualizado sobre design (abordagens biográficas sobre os heróis aceites da disciplina, salganhadas mal misturadas de cocabichices vindas daquela área turva que se confunde com a história do livro, a edição, da tipografia, da arquitectura, etc. mas não chega bem a ser.)

Como dizia mais atrás, o problema não é falta de gente a escrever bem e de modo inovador sobre design. Há muito boas teses e dissertações mas não saem da escola. As que saem para o mundo exterior, através de editoras generalistas, não são as mais arriscadas ou interessantes. São mais confirmações do que já se sabe do que investidas em territórios ou métodos novos. É sintomático que a parte mais interessante destes objectos acabe quase sempre por ser a dos dados em bruto, a das entrevistas por tratar, mais do que a argumentação construída a partir dessa matéria-prima. Ilustra a falta de inovação ou mesmo de pertinência teórica.

Culpo, por um lado, a maneira artesanal e ingénua como se pratica a história do design. O design tem os seus formatos favoritos de tratar a história, tradicionalizados pela repetição, porque dão jeito, porque são fáceis – entre eles o portfolio, o manual, a cronologia, a monografia biográfica. São formatos semelhantes aos usados para promover o design e os designers, adaptados para outros fins. Por outro, culpo a massificação da investigação de Bolonha, que reduziu a metodologia a uma formatação genérica e apressada. Disciplinas mais consolidadas que o design sobrevivem mal – mas ainda assim melhor. O design limitou-se a exportar os seus maus hábitos para um contexto novo.

A melhor tese de doutoramento que li nos últimos dez anos foi a do António Gomes sobre Paulo de Cantos. Ponho a do Victor Almeida, da Fbaul, em segundo. A única separação que as hierarquiza é pessoal e estética. Tem que ver com os meus próprios gostos em termos teóricos. Num meio como o design onde se usa a biografia por defeito, no seu grau mais básico, fácil e acrítico, a tese de Gomes é exemplar. Evita os problemas do costume. Não parte do designer, de uma pessoa eleita como representante heróico da disciplina, como um ponto de apoio mágico para explicar tudo, mas tenta perceber uma vida e uma obra tal como determinadas por um conjunto complexo de contextos históricos, institucionais, etc.

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Filed under: Crítica

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