The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Sobre Palavras

Uma das séries de televisão mais interessantes do ano que passou é The Deuce, dos mesmos criadores de The Wire. É uma história à volta de Times Square da década de 70, de chulos, de prostitutas, de donos de bares, de mafiosos, de realizadores de cinema porno, de políticos. No tabuleiro de Nova Iorque, trata dos percursos paralelos, concorrentes, da prostituição, da pornografia e da gentrificação. Não é tão épica e teatral, mas lembra-me Deadwood, que tratava de temas semelhantes no Velho Oeste. Tal como The Wire, são obras que conseguem revelar nas trajectórias dos personagens dinâmicas sociais maiores, a tensão entre as preocupações quotidianas de um dono de bar, navegando à vista entre as pressões dos seus patrões da Máfia, que tentam organizar e massificar tanto a prostituição como o cinema porno e as pressões da administração municipal, com um plano a longo prazo para limpar a cidade através da gentrificação. É fascinante.

Um dos fios narrativos tem que ver com a homossexualidade, algo secreto porque ilegal na época. Num dos episódios, um personagem no armário, casado com filhos, é «engatado» por um homem de negócios em visita, recorrendo a uma linguagem de código. É uma janela breve para um mundo paralelo que em grande medida se perdeu. Em Inglaterra, por exemplo, havia uma linguagem inteira, que permitia a homossexuais comunicarem em público sem que se percebesse. O risco que corriam era serem presos, internados, sujeitos a terapia hormonal forçada.

Não havia falta de palavras sobre a homossexualidade. Não era uma questão de silêncio. Estou a ler neste momento uma reedição de Terry and Pirates, uma banda desenhada de aventuras para rapazes, do fim da década de 1930, e a cada página surge alguém a dizer que não é um «sissy», ou coisas semelhantes. Apanha-se o mesmo em outras tantas tiras, como Gasoline Alley, que também leio neste momento. Do discurso legal e médico da época, também se podem ver muitos exemplos, a descrever essa «perversão» como um «desvio», uma «doença», uma «inversão», etc. As únicas palavras secretas, o único silêncio, era o dos próprios homossexuais, obrigados a criar e manter uma identidades escondidas, paralelas.

A propósito da ida de Mário Machado à tv reiterou-se de novo a distinção entre palavras e violência. Se o discurso de ódio se limitar às palavras, tudo bem. O problema é quando se bate em pessoas, quando se mata, quando se deporta. Mas a verdade é que essa distinção me parece cada vez mais artificial, uma conveniência de quem não é sujeito às palavras, ao discurso, como uma forma de violência constante. Fazê-la é um indício do que se chama agora privilégio.

As palavras moem e matam.

Filed under: Crítica

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