The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Depois de almoço

Terminei as avaliações tarde, já perto das duas, meio tonto de fome, almocei no primeiro sítio, a primeira coisa. A partir daí, sei o que costuma acontecer. Desço a Passos Manuel em direcção aos Aliados, parando na Fnac para ver os livros. Na secção de História, uma adolescente repetia que até lia um do Hitler, se lho dessem, que lia o Máine Kemf. Um colega disse que tinha. Ela pergunta se vale a pena, porque não ia gastar 26 euros numa coisa que não valesse a pena. Vou à secção de design, que nunca tem nada de novo. Se não fosse o chilrear da jovem, que repetia tantas vezes «Hitler» como um aspirante à direcção do PSD diz «Sá Carneiro», não teria dado conta que havia. Aliás, já lá estava da última vez que lá fui, umas semanas atrás. Na altura, olhei mas não percebi. Só o esforço para filtrar os «Hitlers» ambientes é que me levou a olhar duas vezes para um pequeno livro amarelo que dizia «Dorindo Carvalho». Abrindo-o percebi que se tratava de uma remodelação da Colecção D, de Jorge Silva, e o meu coração descaiu um bocadinho. Eu gostava da Colecção D. Eram livros pequenos, quadrados e atraentes, cada um sobre o seu designer ou estúdio de design. Instalavam-se de um maneira elegante, bem produzida, numa posição escorregadia. Toda a gente acha bem que se façam recolhas dos trabalhos de designers portugueses. Não parece má ideia. O problema é que pouca gente as compra. Para o seu maior público, os estudantes, são caras. Como fonte de pesquisa, o google é mais barato e funciona na maioria dos casos. Para os designers e académicos veteranos que se interessem por história, funcionam como uma lista de compras. Servem para perceber o que se tem e o que não se tem na colecção. Não sei se haverá outro público. Jorge Silva resolvia o problema praticando a história como se fosse uma espécie de direcção de arte.  Fazia com os trabalhos das sumidades do design aquilo que ele sabia fazer com os ilustradores de suplementos como o Mil Folhas, do Público. Recolhendo, tratando, organizando as imagens, não se limitava a um catálogo neutro mas imprimia o seu gosto e a sua visão ao trabalho. Era uma história feita em parte com as ferramentas metodológicas do design prático. E funcionava. Era interessante ver obras organizadas pelo olho de um designer experiente. Folheando este Dorindo Carvalho só conseguia pensar que deve ter terminado o dinheiro ou que o projecto se cansou. Aumentou-se a escala das páginas mas as reproduções pareciam menos nítidas. Mesmo a vaga diferença de tom entre o branco das ilustrações e o das páginas me pareceu inconsequente. Tudo aquilo era bidimensional. Senti falta das fotos de objectos que davam peso e contexto nos volumes anteriores da colecção. Quando entro assim na Fnac, cansado e depois de avaliações, tendo a sair com dois ou três livros. Mais tarde, custa-me a perceber e até a tolerar a sua presença nas minhas prateleiras. Desta vez, saí sem nada.

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Filed under: Crítica

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