The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Década e meia

Foi a 26 de Março de 2004 que publiquei aqui o meu primeiro post. Foram quinze anos bons. Dei conferências. Publiquei três livros. Participei numa prateleira deles. Escrevi para jornais e revistas. Fui citado em artigos, dissertações e teses. Há um grafitti que me cita que ainda apanho por aí. Há uma pintura no tecto de uma das salas da Fbaup que inclui frases minhas. (Ainda é estranho ler o que escrevi em sítios inesperados, interpretado de maneiras que não me ocorreriam) Comissariei exposições. Passei-me de armas e bagagens para o facebook, experimentei o twitter e o medium. Voltei sempre aqui. Escrevi sobre design, tipografia, política, arte, cinema, literatura, banda desenhada, viagens, natação. Regressei sempre ao design, que continua a ser dos meus maiores prazeres. Regressei sempre à crítica, que ao contrário do que se costuma lamentar, está viva e de boa saúde. Não é difícil encontrar boa crítica, fresca, nova, essencial.

Excepto, claro, se estivermos à procura de crítica de design em Portugal.

Costumo dizer que criticar a Comic Sans é a Comic Sans da crítica de design. É como falar do tempo, algo que se faz quando não se tem nada para dizer. No design, há resmas de assuntos assim, que se pensa serem da mais extrema importância mas se resumem a desbloqueadores de conversa. Diz-se logotipo ou logótipo? Fonte ou tipo? O design precisa de reconhecimento? Se os médicos e os arquitectos têm uma ordem porque não têm os designers? Bem tratados, estes temas até poderiam ter interesse – mas raramente são tratados como se fizesse diferença. São como os advérbios de modo longos, que se põem ao começo da frase para dar tempo para pensar, ou para dar tempo a que a ocasião para falar acabe, ou que o elevador chegue ao seu destino, ou que a conferência termine, ou o artigo alcance um número mínimo de palavras.

Podem ser também falsas discussões, que se tem para calar outras pessoas, para as disciplinar. Há uma linha ténue entre a conversa de circunstância e o silêncio imposto pelos argumentos de autoridade. Não falem porque não são designers, ou porque não são designers a sério. Não falem do que não sabem. Porque só se fala do que se sabe, porque há coisas que se sabe. Sabe-se que o Sebastião Rodrigues é um grande designer. Sabe-se que o Paul Rand também. Sabe-se que o Tschichold era o melhor designer de livros. Que a Sabon é uma boa fonte, das melhores. Sabe-se que a revista Almanaque é bonita. Sabe-se que o design é inovação, empreendedorismo. Sabe-se que também é tradição. Sabe-se que o design é muito importante. Sabe-se que na pré-história já havia design. Sabe-se que o design é político. Sabe-se que pode ser político  mas é preciso cautela. Sabe-se que os designers até podem ser políticos mas o melhor design aspira à universalidade. Sabe-se tanta coisa. Sabe-se que era bom os designers aprenderem a fazer orçamentos. Sabe-se que deviam aprender gestão. Sabe-se que deviam escrever mais e ser mais críticos. Sabe-se que deviam escrever menos e ser mais práticos. Sabe-se tanta coisa. E muito pouco disto que sabe interessa, se não for realmente o ponto de partida para uma discussão.

Tenho realmente saudades do design enquanto discussão.

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Um erro, dois erros…

Chamou-me a atenção o leitor Fernando Sousa para um caso curioso. Já referi algumas vezes a discussão que tive com Vasco Rosa do Observador por causa de um erro que ele publicou sobre mim e que se recusou a corrigir. Publicou nos comentários uma vaga admissão onde me culpava pelo próprio engano. Preferiu vir moer-me a cabeça via mail. Entretanto também barafustou com vários leitores entre os quais o próprio Fernando Sousa, que me diz que os comentários desapareceram. Não aparecem assinalados sequer. Diz que quando se tenta publicar dá erro. Um erro que se junta a todos os outros já habituais por aquelas bandas. Acha o Fernando Sousa que eu devia escrever para lá a assinalar o erro. Para quê?

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Comunidade Cultura e Arte

Escrevi o meu primeiro texto para o blog Comunidade Cultura e Arte.

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A Biblioteca na Biblioteca

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Exposição que reúne livros, revistas, fanzines, múltiplos e materiais gráficos (cartazes, folhetos, flyers) editados de forma independente no Porto entre 1999, ano de abertura do Museu de Arte Contemporânea de Serralves, e a atualidade. Além de refletir a vitalidade e diversidade dos muitos espaços artísticos independentes que funcionaram na cidade nos últimos 20 anos – uma parte dos materiais apresentados foi concebida para acompanhar, divulgar e em alguns casos para financiar a programação destes projetos –, “Biblioteca na Biblioteca” dedica-se, em grande medida, a apresentar objetos realizados noutras áreas, especialmente exploradas no Porto – banda desenhada, design, arquitetura e música, nomeadamente.

Os materiais que constituem a mostra são, além de expostos, consultáveis pelo público. Espera-se que o diálogo com determinados colecionadores (que cederam parte dos seus espólios) que ajudou a definir a exposição possa ampliar-se durante o período em que esta estará aberta ao público, e que novos interlocutores possam contribuir com mais materiais para esta “Biblioteca na Biblioteca” em permanente expansão.

Comissariado:
Ricardo Nicolau, adjunto da direção artística do Museu de Serralves e Mário Moura, Professor de design gráfico na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto

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Design e tradição

Quando comecei a escrever sobre design, o meu tema era o que via à minha volta, o design, as revistas, os livros, o trabalho, os recibos verdes, as conferências. Com o tempo, passei quase por completo para a história do design. Fiz a passagem em parte porque havia procura, encomendas, em parte porque a «actualidade» do design era (e é) uma seca – variações infindas do «design é para os designers», queixumes sobre a Comic Sans, o «problema» dos concursos públicos, a ordem dos designers, etc.

Percebi de imediato que a minha formação de base enquanto designer era muito fraca no que diz respeito à história. As noções de histórias dadas durante o curso eram dispersas, pouco sistemáticas, assentes em relatos anedóticos e histórias pessoais – o que não era de todo estranho, porque a história do design internacional que nos chegava através de livros e revistas era o mesmo. Por comparação com as metodologias de história geral ou da história de arte, a história do design era grosseira e amadora, feita sobretudo para consumo interno da disciplina (repisar os praticantes heróicos, repisar a cronologia aceite do design português, etc.) É uma história isolada, conservadora ao nível dos métodos, cuja grande função é legitimar o design como uma área disciplinar. Para resumir, há tantos chavões na história do design português como nas suas «actualidades».

Tem havido cada vez mais excepções, sobretudo ao nível da academia, mas só raramente passam para os trabalhos de divulgação. Estou-me a lembrar, mais uma vez, do trabalho de Vitor Almeida sobre a institucionalização do design português que apareceu numa história do design que saiu com o Público.

Dentro da história do design, tenho trabalhado sobretudo dentro de uma área que talvez se pudesse descrever como a história do design enquanto disciplina: o seu discurso, as suas instituições, os seus métodos, que são entendidos não como características intemporais mas conceitos que mudam ao longo do tempo, às vezes radicalmente. É uma história não dos objectos ou dos praticantes, mas do próprio design enquanto conceito.

Neste momento, interessa-me sobretudo o design pré-moderno, uma área bastante negligenciada. Tende-se a confundir a totalidade do design com o seu período moderno que se iniciou entre o fim do Arts & Crafts e o começo da Bauhaus. Porém, há uma história rica mas pouco conhecida da disciplina antes desse tempo. Para ter uma ideia do que ficou esquecido, entre o aparecimento dos primeiros cursos de design em Inglaterra na década de 1830 e a Bauhaus vai quase tanto tempo como o que nos separa do fim dessa escola. Foi um período onde o design funcionou no contexto da revolução industrial, do Império Britânico e da reflexão política, moral e religiosa sobre a sociedade inglesa. Era um design que já assumia características próximas das do design moderno mas com diferenças fundamentais – que tendem a ser desvalorizadas como excentricidades que haveriam de ser eliminadas posteriormente. Uma delas é a ligação entre o design e a tradição histórica – que o modernismo (como o nome indica) procurou eliminar.

Os problemas de relacionamento do design com a sua história derivam do desprezo modernista da tradição, que se tornaria identitário – desde a Bauhaus, a história não seria uma parte central mas secundária na formação dos designers. Desde o começo, que isso não garantiu realmente uma capacidade crítica em relação à tradição, antes a criação mítica de uma nova, instituindo o modernismo como modelo identitário para o design – fazendo dele uma tradição histórica.

Vendo a cronologia largada do design desde os seus começos como disciplina na primeira metade do século XIX até hoje, é possível verificar o período modernista, embora influente, foi mínimo. No caso do design gráfico, já havia tentativas de sintetizar o modernismo com abordagens historicistas ainda estava a funcionar a Bauhaus (veja-se o Novo Tradicionalismo britânico; veja-se Tschichold depois de renegar a Nova Tipografia). Em termos temporais, a maioria do design é pré ou pós-moderno.

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Busca

Nas últimas semanas, andei feito detective atrás da edição experimental que se fez durante os últimos vinte anos no Porto, sobre o Porto ou por pessoas do Porto. Só posso dizer que foi difícil. Encontrar as pessoas é simples, o problema são os objectos. Um colectivo acaba, muda-se de emprego, de cidade, de gosto, e as publicações desaparecem, desagregam-se. Às vezes, mesmo quem os fazia já nem se lembra. Eu próprio fui-me percebendo do que já tinha esquecida. Temos o passado recente como garantido mas é espantosa a velocidade com que desaparece.

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Obrigações

Tem sido um período bastante ocupado mas não queria descuidar certas promessas, mesmo aquelas que já cumpro por tédio. Uma delas era chamar de vez em quando a atenção para o Vasco Rosa ter publicado um erro sobre mim no Observador e nunca o ter corrigido. Escrevi para lá por três vezes. tudo o que recebi em troca foi uma torrente de mails cada vez mais insultuosos do próprio Rosa. Já nem os leio. Acho curioso o tipo de personalidade que, em vez de corrigir um erro, prefere melgar a pessoa sobre quem o praticou. Acho ainda mais curioso isso ser tão comum nos jornais. Soube de outra pessoa a quem aconteceu o mesmo (não com Rosa): um erro factual numa coluna, um pedido de correcção, e em resultado mails a esparvoeirar.

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«Inspirações»

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O livro da direita é o primeiro editado pela Penguin em 1935. Repare-se como o desenho do pinguim é relativamente tosco por comparação com a versão de Jan Tschichold de 1946 (imagem seguinte). O livro da esquerda é o primeiro editado pela alemã Albatross em 1932. Na capa, indica que não pode ser vendido no império britânico ou nos Estados Unidos. A penguin «inspirou-se» no seu aspecto, no seu logotipo, nas colecções organizadas por cores, e aplicou-as dentro do mercado inglês onde não podiam competir. Por comparação até o logo do albatroz é bem mais elegante do que o pinguim de 35, rivalizando em elegância com o de Tschichold.
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A Espada Selvagem da Joana Vasconcelos (não)

O que mais aprecio em Conan Osíris é o mesmo que não gosto em Joana Vasconcelos: o fabrico. Os dois são comparáveis enquanto fenómenos fabricados, estudados, construídos a partir de fragmentos e camadas de cultura popular. O músico tem melhor fabrico e mais frescura que a artista.

A ironia, a ambiguidade, em Vasconcelos é superficial, bruta, expediente, uma maneira de evitar comprometer-se, de vender o mesmo peixe a gregos e troianos. Pode ser política e empresarial, pode ser feminista e conservadora, pode ser tudo e o seu oposto, provocadora e conformista, conforme o contexto – e a maior suspeita é que não seja nada.

A ironia de C. Osiris é mais ambígua e rica. Alcança a proeza equilibrista da extravagância sem pretensão. Tudo aquilo soa a uma construção feita sobre muito pouco, sobre nada até. Letras mínimas, básicas, óbvias, numa câmara de ecos de musica, performance e character design – e funciona. E fica-se com mais alguma coisa no fim do que no começo.

Vai-se a um programa da manhã cantar uma música cujo verso é «Sabias que o clitóris é um orgão cuja única função é dar prazer a uma mulher?»* E até se ouvir aquilo ali, naquele sítio e àquela hora, o sítio dos «vou cheirar teu bacalhau, maria», dos «bacalhau quer alho», dos «sei lá, sei lá, quem é o pai da criança», não passava pela cabeça que fosse tão básico fazer uma música pimba provocante e feminista, politicamente correcta, que responde com uma pergunta insolente, definitiva, a toda a grunhalhice tradicional, aceite, da música pimba, invertendo-lhe os termos.

Dá que pensar.

* Correcção: A música é da Catarina Branco que a cantou em dueto com Osiris.

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Futebol

Da minha casa, por entre os prédios, vê-se um campo de treino de futebol. Vê-se as rajadas de água do poderoso regador que consegue alcançar todos os cantos do relvado, os treinadores a arrastar vários modelos de baliza, desde as mais pequenas aos maiores. Vê-se os rapazes e por vezes as raparigas a repetirem os mesmos exercícios em círculo como se fossem fotogramas do mesmo atleta presos num loop. São tão miúdos que voam mais do que a bola nos remates. À noite, jogam os mais velhos, iluminados por focos que dão ao relvado o tom de uma televisão vista ao longe.

Se eu espetar o dedo na vertical, consigo tapar toda a nesga de futebol que avisto entre os prédios, consigo tapar toda a parte do futebol que gosto, que é pouca e corresponde a corpos a fazer coisas difíceis e que não percebo, uma admiração animal por um esforço ou uma habilidade que me ultrapassam. Sei que só aumentaria se soubesse as regras, os nomes, tanto dos jogadores ou das equipas como dos movimentos. É o que me acontece na natação, onde o pouco conhecimento e experiência que tenho só me deixa mais maravilhado. Só me deixa entrever uma pequena parte do impossível.

Era bom se conseguisse tapar com a mesma facilidade a parte do futebol da qual não gosto, mas está em todo o lado. Na natação, como na corrida, na ginástica ou no atletismo, não há o mesmo tribalismo de espectador. Não se discute, não se debate, com a mesma intensidade. Ou pelo menos não se discute com uma obsessão tão grande que o jogo se torna um pretexto ritual para demonstrar graus cada vez mais absurdos de fidelidade a um grupo.

O jogo é, pelo lado de dentro, um teatro de operações de onde sai um resultado inequívoco: alguém ganha, alguém perde, alguém empata. Pelo lado de fora, é um evento de interpretação extrema, onde cada segundo, cada gesto, cada palavra, e todos os segundos, gestos e palavras que o rodeiam têm o potencial de ser analisados, criticados, debatidos, até se desfazerem, até dizerem o que se entender.

Num documentário sobre os fanáticos que acreditam numa Terra plana, há um momento em que fazem uma experiência destinada a desmentir a curvatura do planeta. E falham. E dedicam os anos seguintes a desacreditar a experiência que eles próprios conceberam. Importa-lhes mais uma posição, uma pertença. Tudo o que a ponha em causa será invisível.

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico.

Autor do livro O Design que o Design Não Vê (Orfeu Negro, 2018). Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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