The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Futebol

Da minha casa, por entre os prédios, vê-se um campo de treino de futebol. Vê-se as rajadas de água do poderoso regador que consegue alcançar todos os cantos do relvado, os treinadores a arrastar vários modelos de baliza, desde as mais pequenas aos maiores. Vê-se os rapazes e por vezes as raparigas a repetirem os mesmos exercícios em círculo como se fossem fotogramas do mesmo atleta presos num loop. São tão miúdos que voam mais do que a bola nos remates. À noite, jogam os mais velhos, iluminados por focos que dão ao relvado o tom de uma televisão vista ao longe.

Se eu espetar o dedo na vertical, consigo tapar toda a nesga de futebol que avisto entre os prédios, consigo tapar toda a parte do futebol que gosto, que é pouca e corresponde a corpos a fazer coisas difíceis e que não percebo, uma admiração animal por um esforço ou uma habilidade que me ultrapassam. Sei que só aumentaria se soubesse as regras, os nomes, tanto dos jogadores ou das equipas como dos movimentos. É o que me acontece na natação, onde o pouco conhecimento e experiência que tenho só me deixa mais maravilhado. Só me deixa entrever uma pequena parte do impossível.

Era bom se conseguisse tapar com a mesma facilidade a parte do futebol da qual não gosto, mas está em todo o lado. Na natação, como na corrida, na ginástica ou no atletismo, não há o mesmo tribalismo de espectador. Não se discute, não se debate, com a mesma intensidade. Ou pelo menos não se discute com uma obsessão tão grande que o jogo se torna um pretexto ritual para demonstrar graus cada vez mais absurdos de fidelidade a um grupo.

O jogo é, pelo lado de dentro, um teatro de operações de onde sai um resultado inequívoco: alguém ganha, alguém perde, alguém empata. Pelo lado de fora, é um evento de interpretação extrema, onde cada segundo, cada gesto, cada palavra, e todos os segundos, gestos e palavras que o rodeiam têm o potencial de ser analisados, criticados, debatidos, até se desfazerem, até dizerem o que se entender.

Num documentário sobre os fanáticos que acreditam numa Terra plana, há um momento em que fazem uma experiência destinada a desmentir a curvatura do planeta. E falham. E dedicam os anos seguintes a desacreditar a experiência que eles próprios conceberam. Importa-lhes mais uma posição, uma pertença. Tudo o que a ponha em causa será invisível.

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Filed under: Crítica

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