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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Bauhaus 1919-2019

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A data oficial da inauguração da Bauhaus é 1 de Abril de 1919. Faz hoje cem anos, portanto. Não foi a primeira escola de design. A Government School of Design de Londres foi criada em 1837 – tornar-se-ia muito mais tarde no Royal College of Art. A esta juntou-se no ano seguinte a Manchester School of Design. Nestas instituições, já se esboçava o design como uma ideia de projecto que, tomando como base e inspiração a arquitectura, tinha uma ambição total, desde a construção de casas à impressão de livros, desde a criação de padrões têxteis à solução dos problemas sociais criados pela Revolução Industrial.

A Bauhaus obscureceu tudo o que veio antes e muito do que veio depois. Instalou-se como uma origem para o design moderno – fazendo deste sinónimo de design. Tanto o design pré-moderno como o pós-moderno se tornaram correntes alternativas, minoritárias. Não foi uma instituição original por ter sido a primeira mas pelo maneira como se instituiu enquanto origem. De modo consciente ou não, cada novo praticante precisa de se posicionar contra ou a favor dela. Quando um designer se queixa de uma modinha, quando acha péssimo o excesso de estilo pessoal, quando defende a universalidade de um pictograma,  a Bauhaus está a falar através dele. Quando diz que os designers resolvem problemas está a assumir a identidade que o modernismo, e a Bauhaus em particular, lhe determinaram há um século.

Com a Bauhaus, o design passou a ver cada projecto, cada objecto, como um problema a resolver de modo novo, sem recorrer à tradição ou às filiações do estilo. A maior novidade da Bauhaus foi – sem tautologia nenhuma – a novidade, a intuição de que se lidava melhor com novos materiais, novos processos, esquecendo a tradição, esquecendo o vaivém das modas e estilos, e apostando numa nova linguagem universal da forma casada com um conhecimento directo dos materiais. Cada um dos primeiros alunos da Bauhaus era ensinado por dois mestres, um teórico e um prático, um vindo da academia das artes, outro da escola de artes ofícios. O primeiro ensinava teoria da forma, da cor, o segundo o conhecimento dos materiais. Durante o curso preliminar, os aprendizes deveriam descobrir a sua expressão individual, livre de modas ou estilos – que eram proibidos. Partilhando princípios comuns, organizados numa linguagem universal, estariam preparados para colaborar colectivamente em projectos. Seriam estas as contribuições cruciais da Bauhaus para o ethos do designer: uma teoria universal das formas e uma desconfiança extrema do estilo e da moda. O resto do que nos ficou resume-se a um estilo e uma moda, a um rol de objectos e personalidades marcantes.¹

 

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  1. Já em 1930 Walter Gropius tentava reconciliar a existência aparente de um estilo da Bauhaus com estas intenções de universalismo. Via a Bauhaus como anti-académica no sentido de anti-historicista, mas também de anti-estilo e anti-moda: «notwithstanding individual differences among the collaborators, bauhaus products had a certain similarity in appearance, as may be seen in this book. this was not the result of following slavishly a stylized esthetic convention, since it was against just such imitativeness that the bauhaus revolted. it was the outcome of a unified conception of art developed by all the workers in common. at the same time, however, it was necessary to combat imitators and unintelligent admirers who thought that every unornamented building or implement was derived from the bauhaus “style” and who thus threatened to cheapen the meaning of bauhaus work. expressly stated: the goal of the bauhaus is not a “style,” system, dogma, canon, recipe or fashion. it will live as long as it does not depend on form, but continues to seek behind changing forms the fluidity of life itself. the bauhaus was the first institution in the world with this anti-academic trend. it assumed the responsibilities of leadership in order to assure the victory of its ideas and to maintain the vitality of its own community, but the development of a bauhaus “style” would mean a return to academic stagnation and inertia. may it be preserved from such a death!» Herbert Bayer, Walter & Ise Gropius, Bauhaus 1919-1928, Secker & Warburg, Londres, 1975, p. 204.

 

Filed under: Crítica

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