The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Sorrisos Ensaiados

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Em  1993, o designer Erik Spiekermann lançou um pequeno manual de tipografia com um nome excêntrico, Stop Stealing Sheep & Find Out How Type Works. Era um livro simples, de bolso, com mensagens simples, passadas através de imagens e texto combinados num design acessível. Foi dos primeiros livros de design que consegui comprar. Era barato e portátil numa era em que mesmo um número da Eye podia custar uma parte substancial da mesada (durante o curso só comprei dois). Foi dos primeiros livros de design do qual deixei de gostar. A mensagem simples parece-me hoje condescendente, o tom simpático nunca me pareceu sincero. Ao começo, parecia-me o tipo de boa disposição ensaiada que se vê nas Ted Talk. Com o tempo percebi que, por baixo dos sorrisos forçados, havia também intolerância e conservadorismo quanto baste. Nem sequer estavam escondidos. O título do livro anunciava-os.

Stop Stealing Sheep vem de uma máxima do designer de tipos Fredric Goudy. Dizia ele que «quem espaça blackletter [letras góticas] seria bem capaz de roubar ovelhas». Spiekermann adaptou o ditado para condenar o espaçamento de minúsculas. Espaçar minúsculas é colocar   e s p a ç o   e x t r a   entre elas (aqui fiz a coisa a martelo colocando mesmo espaços). Porque é isso de espaça letras tão grave? Espaçar em títulos é habitual, mas porquê tanta má vontade com as minúsculas?

Em parte, tem que ver com modas. Em 1990, três anos antes de Stop Stealing Sheep, saía o primeiro número do jornal Público. Na época, houve muita gente a queixar-se da Bodoni condensada, que era uma deformação da letra, mas o que também é evidente na primeira página do jornal eram os espaçamentos generosos, não apenas o das maiúsculas do cabeçalho mas o das minúsculas do subtítulo – onde diz «edição». Mesmo os títulos das notícias tinham muito espaçamento. Quando Spiekermann falava de roubar ovelhas estava a falar disto.jornal.png
Espaçar letras foi uma moda, talvez até a moda, na década de 1980. Veja-se a capa de Lonely is an Eyesore, de Vaughan Oliver para a 4Ad:
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Era uma das imagens de marca do chamado design gráfico pós-moderno, como se pode ver por um dos seus objectos mais conhecidos, este poster de Allen Hori, de 1989:
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Em parte, o espaçamento derivava da Teoria Pós-Moderna, em particular da Gramatologia de Derrida, os Paratextos de Gerard Genette, a Arqueologia de Foucault, que – resumidamente – punham em causa a ideia do grafismo como invólucro neutro e transparente. Explorando com o que estava de fora dos textos, as margens, os espaços entre as letras, procurava-se desconstruir as hierarquias e identidades dominantes. Um exemplo típico é o The Telephone Book, de Avital Ronell e Richard Eckersley, também de 1989 – note-se as minúsculas espaçadas.
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Por outro lado, o espaçamento era uma contra-reacção à tipografia apertada dominante desde o fim da década de 1960 até ao começo da década de 1980. Nessa altura, designers como Armando Alves tentavam seguir as tendências internacionais mais excitantes, encostando as letras o mais possível. Em alguns casos, como me explicou o próprio, o que se fazia era «aparar» os caracteres de chumbo de modo a forçar o encosto. (As gráficas não gostavam.)
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A moda teve como expoente máximo Herb Lubalin, o criador de fontes como a Avant Garde, onde cada letra se encostava nas outras, entrando por elas adentro. Também havia aqui teoria, a ideia de um erotismo e libertação da letra.
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Do lado técnico estas eram letras adaptadas à fotocomposição e não à tipografia de chumbo, que permitia não apenas kernings apertados mas até sobreposições. Em Portugal, a fotocomposição entrou tarde, daí as aparadelas.

Mas o espaçamento de minúsculas está certo ou está errado? Não se sabe bem quando Goudy disse a sua frase. Teria sido na segunda metade da década de 1930. Goudy vem de uma tradição americana próxima ao do book design do Arts & Crafts. Uma das regras para o livro ideal, segundo William Morris, era colocar pouco espaço entre caracteres. Contudo, Goudy falava de blackletter. Como o artigo que já linkei acima lembra, na tradição alemã, o espaçamento de blackletter era comum, chamava-se sperrsatz. Como não havia itálicos ou bolds, o sperrsatz era uma maneira de criar ênfases.
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Mais ainda: em Cirílico, em particular durante o período soviético, usava-se espaçamento largo para enfatizar palavras como se faz com o itálico.
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Nesta página de Malerei Fotografie Film, de Moholy-Nagy, um livro da Bauhaus de 1925, o espaçamento também é usado para ênfase.
IMG_5088.jpgOu seja, é bem possível que Goudy estivesse também a reagir a modas e culturas que no fundo não eram a sua. Tal como Spiekermann, assumia que a sua tendência e a sua cultura eram a regra universal enquanto as outras não passavam de erros ou desvarios.

É uma atitude comum, e das mais irritantes que se inculca nas escolas aos futuros designers. Calculo que tenha a sua origem na prática. Se um bom designer pode aspirar a umas tantas décadas de serviço, só estará na moda uma pequena parte desse tempo. No resto, o melhor que pode fazer é tornar-se o mais intemporal e confiável possível. Tentar integrar-se dentro do cânone, da «estória» do design como grande narrativa cheia de anedotas e pequenas pérolas de sabedoria, e que tem como única utilidade criar coesão e camaradagem entre os mais variados praticantes. É a história reduzida a Ted Talk. Uma continuidade idealizada entre praticantes que passam alegremente e sem problemas o testemunho à geração seguinte. Olhando bem, o sorriso é ensaiado.

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Filed under: Crítica

One Response

  1. […] design é o mesmo. Ainda há pouco escrevia eu sobre o título do livro de Erik Spikermann, Stop Stealing Sheep, que o próprio dizia […]

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