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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Design e Edição?

No design, como em outros sítios, há coisas que até interessam mas já nem apetece falar nelas. Dá vontade de mudar de passeio. Já não tenho grande paciência para as pequenas editoras portuguesas do fim do Estado Novo. É assunto que não está esgotado mas é quase sempre tratado da mesma maneira, como uma recolha corajosa de um património quase esquecido, de anedotas de fuga à censura, de tricas, querelas e inimizades, dos velhos tempos em que a edição era realmente a sério, etc. Luíz Pacheco, Vitor Silva Tavares, Afrodite, etc.

É hábito dizer-se que se trata de história esquecida mas – por amor de Deus – até já uma espécie de telenovela sobre isso, que se vê bem, uma coisa chamada 3 Mulheres, com realização de Fernando Vendrell. E no capítulo das estórias sobre edição consegue inovar simplesmente por tratar o período sob o ponto de vista de mulheres, não apenas as três titulares, Snu Abecassis, Vera Lagoa e Natália Correia, mas uma rede alargada de personagens femininos, bem construídos, com vidas interiores, com agência, ao lado das quais os personagens masculinos parecem bonecos sem profundidade, anedotas – o que acaba por ser uma representação realista, não do que se passou mas da maneira como as estórias da edição do período insistem em tratá-los. Há excepções, claro, a biografia de Luiz Pacheco, por João Pedro George, trata-o, a ele e ao meio, para além da anedota. Há trabalhos científicos sobre edição que, evitando cair na armadilha da história oral, das anedotas, das personagens, dão uma boa imagem das condições políticas, sociais e culturais do meio (estou-me a lembrar de um trabalho de Nuno Medeiros).

Pelo meio, uma coisa que fica por tratar é qual a relação do design com isto tudo, ou até simplesmente com a edição. Há a intuição que têm qualquer coisa a ver, afinal também há paginação, também há gráficas, há fontes, etc. mas fica sem se perceber porque se interessa tanto a área disciplinar do design pela edição, qual é realmente a ligação. Só se assume que há uma.

Nem sempre foi assim. Até quase aos finais da década de noventa não só era raríssimo ver designers a editar como a identidade do designer e a de editor eram incompatíveis. Um designer era suposto tratar da concepção visual, gráfica, de um projecto. O editor coordenava os conteúdos escritos. Era o que se chamava, no vocabulário do design, um cliente. Havia uma separação de tarefas.

Quando se fizeram cursos de design, não houve qualquer tipo de preocupação em dar formação formal em edição, começando pela questão mais básica da revisão ou até do português. Se houvesse alguma, a formação seria da responsabilidade do aluno. Só muito recentemente, já neste século, é que o design se virou para a edição. A figura do designer-editor (do designer formado que se dedica a edição) só se começou a vulgarizar depois dessa altura. É um desenvolvimento que ainda não fez vinte anos, e não apenas aqui em Portugal.

Não significava que não houvesse excepções, mas antes eram realmente excepções. Agora é um sub-género. Aos cursos e cadeiras de design editorial que correspondiam a design feito no meio editorial, começaram a juntar-se cursos e cadeiras de edição, onde não se assumia que o designer iria trabalhar com um editor mas iria ser ele próprio um editor. E naturalmente começou a fazer-se uma história da edição vista sob o ponto de vista da área disciplinar do design. A história do design, na sua versão popular, tende a ser ingénua e pouco informada no que diz respeito a metodologias e tendências de investigação em história. Tende ainda a funcionar um mecanismo para dar coesão aos múltiplos interesses que a área disciplinar vai acumulando, criando uma narrativa simples que dê sentido a tudo o que vai entrando. Tende a aplanar e disfarçar diferenças e transições que já foram extremas e agora são vistas como naturais. Há muitos exemplos – a relação do design com o empreendedorismo que hoje é natural mas que há uns vinte anos era vista como uma esquisitice, «designers» a trabalhar sem cliente.

Ou seja, o que falta é uma história do design entendida não como um rol de praticantes e objectos notáveis mas uma história realmente do design, do design como ideia. Aí perceber-se-ia como o conceito muda bastante em relativamente pouco tempo.

Para um designer se tornar num editor, sem deixar de ser um designer, foi preciso um conjunto grande de mudanças, foi preciso não só o computador mas também a internet, e talvez da web 2.0, que faz de cada utilizador num editor e curador da sua própria identidade pública – também vale a pena investigar a figura do curador que também teve a sua ascensão no mesmo período e pelas mesmas razões. Talvez se possa juntar a isso o modo como a escrita se tornou mais presente na formação do designer, através da explosão dos mestrados e doutoramentos. Enfim, há muitas hipóteses, mas primeiro que tudo há que tratar a relação entre design e edição como um problema que vale a pena ser investigado.

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Filed under: Crítica

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