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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Designers que duram e duram

Por volta das quatro e meia da manhã do dia 17 de Janeiro de 1994, ocorreu o pior sismo registado até hoje numa área urbana nos Estados Unidos da América. Durou menos de vinte segundos. Teve o seu epicentro no San Fernando Valley, em Reseda. Devastou toda a área de Los Angeles, destruindo casas, viaturas, viadutos, matando perto de setenta pessoas (não se sabe ao certo) e ferindo mais de oito mil. Nesse dia, o designer Peter Saville tinha três dólares no bolso. Era tudo o que tinha. Ainda era dos designers de capas de discos mais famosos do mundo. Quinze anos antes, tinha desenhado a capa de Unknown Pleasures para os Joy Division. Nos últimos meses, visitava editoras de música na esperança que lhe oferecessem vinis que pudesse vender em segunda mão.

É uma boa história para contar aos alunos. O que digo a seguir é que um designer que nasça agora tem uma expectativa de vida de cerca de oitenta anos. Nesses oitenta anos, terá muita sorte se estiver na moda uns quinze anos, cinco à primeira e outros dez se por acaso se alguém se lembrar dele mais tarde e ainda for vivo – uso o masculino porque ainda são raros os casos de mulheres designers que chegam à segunda fase, a do revivalismo. A maioria dos designers nunca chega a estar na moda. Quando muito faz parte de uma ou duas.

Duas modas, porque se tem uma fase excitante na juventude em que se está na crista da onda, sem se perceber como ou porquê. É como estar num concerto. É algo maior do que nós, e não interessa. E depois há uma fase em que já não se funciona a instinto e é preciso alguma forma certa, confiável de manter as coisas a funcionar. É a fase dos hábitos, das regras, de falar sobre história e tradições. Se a primeira moda porque se passa é como um moicano em 1976, como uma camisa de flanela ao xadrez e umas All Stars em 1993, a segunda é um fato de alfaiate, feito por medida, e que se conta usar durante anos.

Boa parte do design enquanto disciplina é uma espécie de Casa dos Artistas, um sítio onde os designers vão quando não estão na moda, uma rede de segurança que os ampara quando o que fazem já nem os excita sequer a eles próprios, um plano poupança reforma para quando o fogo se apagou (e o fogo estará muito mais tempo apagado do que aceso). Não se aprende inspiração na escola. Aprende-se método, que é como quem diz: o que fazer quando a inspiração não chega.

Ensina-se um certo de tipo muito particular de sobrevivência, de longevidade. Aprende-se não apenas o design mas formas laborais de organização do trabalho que se confundem com o próprio design. Falo do estúdio. O estúdio costuma ser dirigido por um ou dois designers séniores que se rodeiam por alguns designers assistentes e por uma rotação de estagiários. É comum ter o nome do designer que o dirige. O estúdio produz design para o que chama uma carteira de clientes. A relação entre um estúdio e um bom cliente pode durar décadas. Dura em geral mais tempo do que o designer que dirige o estúdio está na moda – o que por vezes coloca problemas curiosos com soluções curiosas.

Há muitos, muitos anos, a.c. (antes da crise), havia uma entidade chamada Centro Português de Design, que começou por servir para propagandear o uso do design junto da indústria e terminou a sua existência triste a servir de intermediário entre os designers e grandes encomendas do Estado. Essa intermediação fazia-se promovendo, regulando e concretizando concursos. Quando dado evento ou instituição precisava de imagem, o CPD criava um concurso destinado a jovens designers, oferecendo algum dinheiro ao premiado, uns cinco mil euros. Era pouco, muito pouco, mas os designers eram jovens e inexperientes, portanto era preciso que um gabinete de design mais experiente limasse a coisa, polisse a coisa, puxasse o lustro à coisa. Esse gabinete de design era contratado por ajuste directo, sem concurso. Cobrava pouco mais de 180.000 euros pelo incómodo. O mais curioso é que num desses casos – o do concurso para a imagem do centenário da República – o estúdio que fez esse serviço era o do presidente do CPD. A coisa chegou a ir parar aos jornais.

Por um lado, podemos ver isto como um daqueles escândalos de auto-favorecimento do costume (em grande medida porque é). Por outro, é também uma óptima estratégia para resolver aquela coisa de não estar na moda. O estúdio assume um papel invisível de backoffice e subempreita a parte criativa do trabalho a jovens designers. No fundo, é virar do avesso o processo mais conhecido de contratar um monte de estagiários e aproveitar o processo criativo deles sem lhes dar crédito. (Uma peúga virada do avesso cumpre também serve). Lá está, boa parte das estratégias e estruturas que se aprende servem para sobreviver e durar.

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Filed under: Crítica

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