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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Designers, às vezes durante décadas

Tem-se discutido aqui e ali o «escândalo» dos ensaios de João Pedro George na Sábado sobre a Imprensa Nacional Casa da Moeda, sobre um director, Duarte Azinheira, que edita obras do seu tio, António Mega Ferreira, e onde se mete ao barulho o editor João Paulo Cotrim e o designer Jorge Silva. Antes de continuar, uma declaração de interesse: já trabalhei para a INCM através do Jorge Silva (escrevi para a Colecção D) e já trabalhei com o João Paulo Cotrim (numa publicação sobre o centenário da República).

O que me interessa na polémica é levantar-se de novo o problema de como um designer se relaciona com uma instituição pública – e mais uma vez perder-se a oportunidade de discuti-lo com seriedade.

Fica-se espantado com o modo como um designer trabalha recorrentemente para uma instituição ao longo de anos sem concurso quando isso acaba por ser o modo como todos os grandes designers trabalham. Mostrem-me um grande designer português e eu mostro-vos avenças duradouras. Sebastião Rodrigues e a Gulbenkian. José Brandão e também a Gulbenkian. Os designers que foram trabalhando ao longo dos anos para os CTT. Jorge Silva e a INCM. Os convites directos feitos a Sagmeister, etc. É esse modo por defeito como se trabalha. Criar e manter relações duradouras com instituições públicas é apenas outro nome para a história do design do português, quando se faz essa história a partir de «grandes» nomes.

Habitualmente, fica sem responder se realmente é essa a melhor maneira de praticar o design porque acaba por ser a única que fica na história. Há alternativas, como é evidente. Ao longo do tempo, mas nem tanto da história, houve designers que trabalharam para instituições não como designers de nome mas como funcionários. Falo por exemplo da Alda Rosa, da Márcia Novais e penso que da Maria Keil. É um design que por vezes tende a desaparecer porque os critérios com que se julga o bom design exigem um grande nome, exigem uma certa estrutura laboral (é preferível a estrutura do estúdio à do funcionário ou até do freelancer).

O modo como se escolhe designers para trabalhar durante décadas também deveria ser discutido. Na maioria dos casos, é um processo de selecção informal. Contrata-se e fica-se com o designer por uma decisão pessoal e/ou estética, que se vai mantendo ou não ao longo dos anos. A alternativa que se dá a isto é o concurso, que é igualmente problemático, porque o concurso em design é mais dirigido a encomendar objectos do que a escolher pessoas. Se calhar, devia-se escolher o designer de um museu da mesma maneira que se escolhe um director de museu, avaliando não objectos ou propostas de objectos mas a capacidade de um designer para gerir o design ao longo dos anos. Se calhar designer deveria ser mais um cargo de direcção do que uma consultadoria externa exercida nos moldes de uma profissão liberal.

Ou seja, para se perceber se uma contratação é justa ou não, também se deveria tentar perceber o que é um designer e se o design pode ser exercido de mais que uma maneira.

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Filed under: Crítica

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