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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Livros B, Alda Rosa

livro B
Os Livros B, da Estampa, uma das mais carismáticas colecções de livros que se lançaram em Portugal, foi relançada. Aqui faz-se uma pequena história da colecção e da sua reedição.

Os originais eram objectos subtilmente físicos, com as suas capas alongadas de cartolina parda, só com letras e ornamentos estampados a prata, a fazer contraste com o miolo azul, tudo muito bem equilibrado, sobretudo a composição puramente tipográfica da capa, construída de ingredientes difíceis, que dariam cliché em olho menos hábil. Repare-se como a espessura da fonte «à cowboy» do título é suavizada pela dupla moldura. Repare-se como a ornamentação é usada não apenas como decoração mas para assegurar que a variedade tipográfica se integra e se hierarquiza. é complicado lidar com Fat Faces – as fontes «à cowboy» –, com ornamentação vitoriana. Repare-se também que é bastante difícil um designer safar-se com tipografia clara sobre fundo escuro. A maioria das fontes foi feita para funcionar como figura sobre superfícies mais claras. Em negativo, cada letra torna-se numa fonte de luz e parece mais volumosa, fundindo-se com as suas vizinhas. As hierarquias habituais invertem mal, deixa de se perceber tão bem o contraste entre o bold e o regular. Nestas capas, o problema é usado para suavizar e integrar a variedade num todo coerente.

Por comparação, o novo design parece menos conseguido, o que é injusto porque uma reedição pede comparação, e a primeira versão, por brilhante que fosse, é algo da sua própria época, de quando o tesouro de um designer eram os catálogos de ornamentos e fontes vitorianas. Reviver isso agora seria o pastiche do pastiche. Usa-se na mesma uma fonte excêntrica, já não com as grandes serifas rectangulares a criar raccords entre as letras, mas a apostar na terminação estranha e no desenho de pormenor. Mantém-se a moldura, mas mais como evocação abstracta do que por motivos funcionais. Sem ornamentação, as diferenças de tamanho e espessura das fontes, um pouco desconjuntada, é enfatizada.

Os Livros B, pelas suas capas tipificadas mas com um toque de excêntrico têm o que o design de uma colecção de livros excêntricos e obscuros deve ter: cada livro puxava o conjunto, pedia ao leitor para os arrumar todos juntos, empurrava-o a ler coisas que até nem esperava, em parte porque as capas tipográficas também emolduravam a estranheza magnética de certo título.

herbeto

A sua designer, Alda Rosa, é autora de muito design do design editorial mais interessante que se foi fazendo aqui em Portugal. Sempre que, à procura de ouros livros, passo pelo único volume que tenho dos dois que desenhou para a poesia toda de Herberto Hélder, tiro-o da prateleira e fico a olhar para aquela capa. Mais uma vez, a proeza é conseguir uma capa evocativa, quase puramente tipográfica, onde se ilustração geométrica e caracteres se equilibram na perfeição. Os dois hemisférios incompletos, abertos, «agarram» a tipografia do título, e do nome do autor, fazem daquilo um todo inesperado, um feito do trabalho poético das formas que poucas vezes se consegue em design.

Filed under: Crítica

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