The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Os Viadutos Rebaixados do Espírito

197416_2 (1).jpg
Robert Moses, responsável pela reconstrução maciça de toda a área de Nova Iorque durante o século XX, que construiu parques, auto-estradas e jardins, que demoliu bairros para construir vias rápidas, que construiu habitação social, que reconfigurou a cidade para o reino do automóvel, era um homem extremamente racista. Diz o seu biógrafo Robert Caro que Moses baixou a altura dos viadutos de acesso às praias da zona o suficiente para que os autocarros dos transportes públicos, usados sobretudo por minorias pobres, não passassem. As leis mudam, pensava Moses, mas a infraestrutura congela as decisões, obrigando as gerações futuras a acatá-las, quer quisessem, quer não.


Tende-se a ver Salazar como um personagem medíocre, e é um mau serviço que se faz a quem contra ele lutou. Era muito inteligente e muito implacável. Por isso, reinou durante quase quarenta anos, conseguindo reprimir todas as tentativas de o afastar. O testamento da inteligência de Salazar é que, hoje em dia, mesmo quem não gosta dele ainda o vê, a ele e ao país nos seus próprios termos.

Ainda se fala dos brandos costumes, apesar de toda a violência com que se instituiu esse mito, com milhares de presos e exilados, com milhares de mortos, tanto na repressão política como na guerra. Ainda se debate se era um regime racista, apesar do próprio Salazar falar de «raças inferiores». Ainda se debate se era ou não um regime fascista, apesar da sua estrutura ser muito semelhante à dos outros fascismos, apesar de toda a imagética do começo do regime ser construída à base de saudações romanas em parada, de evocações da raça, do sangue lusitano, de um passado mítico constituído como um ideal a atingir, etc. Apesar da fotografia autografada de Mussolini que se podia ver na sua secretária antes do fim da Segunda Grande Guerra. Este fascismo às claras tornou-se incómodo quando os outros fascismos foram destruídos. É um triunfo do spin salazarista que ainda hoje se duvide se o regime foi ou não fascista.

E se acate tudo o que foi inventado nessa altura enquanto tradição como se fosse realmente uma identidade natural. Se é costume acreditar na tacanhez de Salazar, um erro pior é subestimar António Ferro. Foi ele que inventou boa parte do que ainda hoje consideramos ser a nossa identidade nacional. Com a ajuda de gente como Leitão de Barros, Cotinelli Telmo, Raúl Lino, Tom, os irmãos Novais, projectou o que ainda hoje dizemos, não só sobre o regime mas sobre Portugal.

Mesmo quem lutou contra o regime ainda o vê nos termos que ele criou – o que é um problema quando se lida com os novos fascismos. Vê-se o fascismo como uma coisa pia, solene, tacanha, sem sentido de humor. Não se percebe como ainda constrói uma política de identidade – Ferro chamava-lhe «Política do Espírito» – que ainda agora nos leva como uma grande torrente subterrânea.

A história que contei sobre Moses falava de infraestrutura física, mas a outra, a cultural, a identitária, tantas vezes desprezada, tantas vezes vista como forma sem conteúdo, sobretudo no que diz respeito a Salazar, é como se pode ver, bem mais duradoura.

Anúncios

Filed under: Crítica

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: