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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Complicar o Sebastião

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Por motivos de investigação, tenho sido obrigado a ler a cada vez mais vasta pilha de «edições populares» sobre Sebastião Rodrigues. Chamo-lhes «populares» para as distinguir da produção académica. São obras que, imagino, têm como alvo os estudantes universitários, os curiosos e os completistas, que se propõem ser uma síntese breve do que se vai sabendo sobre o seu assunto.


Tem sido difícil. O que me dificulta está bem à vista no livro de Maria João Bom, Sebastião Rodrigues «graficaturas». A minha intenção não é ser mau, porque se percebe que é um livro feito com carinho e entusiasmo – mas o carinho e o entusiasmo podem ser um problema. Está-se constantemente a martelar no carácter e na personalidade de Sebastião Rodrigues, na sua modéstia, na sua humildade, etc. É um problema comum, que já existia no Sebastião Rodrigues · Designer da Gulbenkian, perdoável, porque se assumia como uma homenagem de amigos e colegas. Perigoso, porque se corre o risco de santificar o designer.

Para o evitar, seria necessário ter o cuidado de separar um pouco as qualidades morais e políticas do homem das qualidades da sua obra. Ora o problema recorrente com Sebastião Rodrigues é que só muito raramente se fala realmente da sua obra. Mostra-se a obra, tanto através de reproduções a quatro cores como através de ensaios biobliográficos, onde se trata quase sempre mais das vidas e da maneira como a obra se encaixa nelas, do que a tentar perceber criticamente e historicamente a importância dessa obra. Fala-se da aprendizagem, dos colegas, dos clientes, dos prémios, mas fica quase sempre por fazer uma análise igualmente aprofundada da obra.

Alguns contra-exemplos: no Sebastião Rodrigues · Designer, José Brandão faz uma análise  breve mas esclarecedora de uma única obra, O Papel Moeda em Portugal, do seu processo de design, das técnicas usadas, do contexto institucional e até pessoal. No mesmo livro, Robin Fior escreveu o melhor texto crítico que li sobre a obra do designer (Glifo, signo, assinatura, design), mas que ainda assim sente a necessidade de se justificar perante o mito, declarando que apontar «as origens ou desvendar alguns dos segredos do trabalho de Sebastião Rodrigues não prejudica o mistério e a surpresa inerentes aos seus melhores trabalhos.»

Aqui, vou demonstrar a minha intenção de não ser mau. O livro de Maria João Bom tem também uma qualidade rara, no que diz respeito a Sebastião Rodrigues: não se limita a afirmar a qualidade das obras apresentadas mas tenta demonstrá-la. Sempre que possível faz-se uma pequena análise ou pelo menos descrição formal. Contudo, e como acontece quase sempre, confia-se demasiado no que o designer e os seus amigos dizem.

Repete-se como em  todas as obras sobre Sebastião Rodrigues que Sebastião Rodrigues era politicamente neutro ou apolítico. E até se tem algum cuidado, raro, de tentar enunciar em que consiste essa neutralidade, e de como permitiu ao designer trabalhar sem se comprometer para o regime e para quem se lhe opunha. Tratava-se em grande medida de trocar as voltas à censura usando o design para criar mensagens ambíguas que diziam uma coisa aos iniciados e outra a quem só folheasse – colocar, por exemplo, o símbolo da paz de pernas para o ar numa capa do Almanaque.

Porém, soa a pouco. A colaboração de Sebastião Rodrigues com o regime não foi curta e só se tornou mais profunda com o tempo. No fim, ele era efectivamente a voz gráfica de Marcelo Caetano, uma parte da sua obra que não costuma ser referida. Em trabalhos como 1968-1975 Cinco Anos de Governo ou Portugal Um País que Importa Conhecer ilustra graficamente discursos do ditador. Estas obras estão significativamente ausentes do catálogo da Gulbenkian. Também não são referidas no livro de Maria João Bom. O único a mencioná-las, mesmo que brevemente, neste tipo de obra de grande divulgação é José Bártolo (Sebastião Rodrigues, Designer da Alegria e da Parcimónia, fazendo parte do livro Sebastião Rodrigues, edição Cardume/Esad).

Se o design de Sebastião Rodrigues nos parece neutro, tal deriva do modo como isso nos é dito, principalmente pelo que fica por dizer. É uma neutralidade complicada, comprometida, reforçada por decisões posteriores de esbater ou até fazer desaparecer a parte mais incómoda da sua obra. Não se pode só gabar o homem humilde, honestos e modesto, quando se sabe que trabalhou directamente com um Estado que, por coincidência, gabava os grandes homens, humildes, honestos e modestos. Seria precisa um bocadinho mais de atenção à maneira como o design português constrói as suas narrativas e com que ingredientes. A vida de Sebastião Rodrigues, não a do homem que nasceu no Dafundo, mas a do designer é uma construção complexa, em grande parte repetida como um mito.

Conta-se muito a estória de como o jovem Peretz Rosenbaum mudou o seu nome para Paul Rand. Fez isso para contornar o anti-semitismo do mundo da publicidade. Há quem diga que o fez porque é mais fácil compor um logo com dois nomes com quatro letras. Uma explicação não elimina a outra, só mostra que a identidade gráfica e a identidade política andam de mãos dadas.

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Filed under: Crítica

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