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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Pintores-decoradores e fotógrafos

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Um dos primeiros projectos de António Ferro à frente do Secretariado de Propaganda Nacional é produzir «um grande álbum de luxo: Portugal-1934, que documente com gravuras expressivas, irrespondíveis o que se tem feito em Portugal nos últimos sete anos». Para dirigir a tarefa, chama Leitão de Barros, na altura o director de arte de uma das revistas portuguesas mais graficamente inovadoras, o Notícias Ilustrado. Fazia gala de ser o único periódico em Portugal a ser impresso em rotogravura, uma tecnologia importada da Alemanha pelo próprio Leitão de Barros. Seria na oficina que fundou, a Neogravura, que seria impresso em 1959 Lisboa Cidade Triste e Alegre, de Martins e Palla.
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No Notícias Ilustrado, Leitão de Barros e o seu colaborador frequente Martins Barata conseguiram produzir um semanário moderno, onde a fotografia já não era ilustração secundária do texto, mas o motor narrativo de muitas das histórias. A parte mais importante da revista eram ensaios fotográficos realizados através de fotomontagem, onde texto, ornamentação e fotografia se reuniam num todo dinâmico.
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Os fotógrafos do Notícias já recolhiam imagens expressamente para o seu uso em fotomontagens, como explica Mário Novais em entrevista à revista Objectiva, 1941:

«Habitualmente, o processo decorre, mais ou menos nestes termos: há um determinado tema a realizar, fazem-se, então, séries de fotografias adequadas que podem ser, segundo as circunstâncias, vinte ou mais «clichés» diferentes. Ampliam-se para formatos pequenos e entregam-se ao decorador.

Termina aqui a primeira fase do trabalho fotográfico. A composição cabe ao decorador. Quando este, depois, nos apresenta a «maquete» terminada, começa então a segunda fase. Aqui, há dois caminhos a seguir: ou se reproduz a «maquete» e se amplia o negativo, ou ampliamos cada foto, de per si, à escala da «maquete», cortamos os positivos e colamos. Prefiro o último sistema porque o primeiro nunca dá perfeito. No fundo, cifra-se a uma simples reprodução com todos os defeitos ampliados numa vasta proporção. Falta-lhe sempre a frescura e o natural.»

Novais preferia até que “esse trabalho [fosse] feito por outra pessoa – por um pintor ou por um decorador – para sermos mais consentâneos com a finalidade a que se propõem as montagens», não porque «me sinta incapaz de criar – tal capacidade nunca me faltou, felizmente – mas porque sentimos repugnância em metermos a tesoura naquilo que gostamos”.

O «decorador» seria um precursor do designer gráfico. Dentro da estrutura do SPN e do seu sucessor SNI (Secretariado Nacional de Informação), o pintor-decorador era uma peça crucial, produzindo desde todo o tipo de publicações e cartazes até exposições de grande escala.

A fotografia é usada aqui de maneira moderna. Nem como objecto documental, nem como um objecto artístico determinado pelas intenções do fotógrafo, mas como matéria-prima a ser montada e remontada, como peça modular prestando-se às mais variadas combinações.
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É o que sucede no álbum de luxo Portugal 1934, onde reaparecem fotos já usadas em reportagens do Notícias Ilustrado.
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Filed under: Crítica

One Response

  1. […] esta mesma imagem da multidão é usada também no grande álbum de propaganda ao Estado Novo Portugal 1934. Aqui ainda tem mais impacto, ocupa uma grande panorâmica de abrir com mais de um […]

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