The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Coisas que são como o Dartacão

Há filmes ou, pior ainda, séries que são como a música do Dartacão. Era uma vez os três, os famosos não nos saem da cabeça, do pequeno Dartacão não nos saem da cabeça. Não são grande coisa, se calhar até são piores que a música do Dartacão, mas não nos saem da cabeça. Tenho objectos desse género, dos quais não gostei quando os vi mas acabaram por me ficar na cabeça.

Dou exemplos. About Time, um filme do mesmo tipo que fez o quatro casamentos e um funeral. É mau, até eticamente mau. A história de um tipito que usa viagens no tempo para dormir com mulheres, mas lá para o mim consegue de repente, sabe-se lá como, mostrar o que é realmente fazer uma escolha, e como essas escolhas nos obrigam a deixar de ser egoístas, a deixar ir o passado – o protagonista deixava de poder viajar até antes do momento de conceber o seu filho porque quando voltava ao presente tinha sempre um filho diferente, resultado de uma combinação diferente, um outro espermatozóide a atingir um óvulo. É só isso, mas quase que chega.

Mr. Turner, de Mike Leigh, que não gostei à primeira mas que me assombra um pouco agora. Suponho que por ser um óptimo filme histórico sobre o processo criativo, com grandes actores e uma boa noção de atmosfera. O equivalente em direcção de actores a um quadro do próprio Turner: um torvelinho que, sabe-se lá como, consegue evocar um sentido imenso de natureza.

Everybody Wants Some!, de Richard Linklater, que me ficou também pelos personagens, pelos actores, por subtilezas que só se apanham – ou melhor, que nos apanham – depois. Se as deixarmos.

E em termos de séries, fico espantado quando de repente me lembro de uma coisa como Fast Forward, que não deu em nada, sobre como a humanidade inteira, num soluço colectivo, teve uma visão de um instante no futuro próximo. Não era nada de especial. Podia ter sido muito melhor. Podia ter sido o Leftovers. Mas não foi. E apesar disso, ficou-me.

É má política fazer crítica em nome do que fica na memória, do que fica para a história. É o que me irrita mais na crítica de cinema do Público. O que fica para a história não depende do crítico. E se depende, não deveria depender. A história tem os seus próprios mecanismos. Fazer crítica em nome da posteridade é paralisante. Às vezes, interessa perceber se um filme faz sentido agora. Se vale a pena vê-lo agora. Andar a apostar o que vai ficar na história é reduzir a crítica e as usa estrelinhas a um boletim de Totobola. Ainda por cima sem prémio no fim.

Filed under: Crítica

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