The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Decorativos e felizes

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O Notícias Ilustrado, suplemento semanal do Diário de Notícias, era provavelmente o periódico português de grande circulação com o grafismo mais inovador. Foi durante muito tempo o único impresso em rotogravura, uma técnica que fazia da página uma só unidade, uma só imagem, valorizando a fotografia, a colagem e a sua interacção com o texto. Leitão de Barros, hoje mais conhecido como cineasta, foi o seu director artístico. Ensaiou em Portugal técnicas de edição e composição editorial ao nível do que de melhor se praticava no mundo.

É claro que não é nisso que se pensa quando se olha para a página acima, publicada no Notícias Ilustrado de 25 de Setembro de 1932. Não sei se é possível imaginar uma composição que condense numa só peça de design tantos níveis distintos de racismo, toda ela se dedica a explicar graficamente o que seria o «negro»: a sua abundância (uma multidão), o seu modo de vida «primitivo» (o retrato de conjunto da «tribo»), o corpo objectificado das suas mulheres, a sua integração no império português, de braço no ar, a fazer a saudação romana. Quase nem é preciso ler o texto, que nos descreve uma África de «pretos simpáticos, pretos decorativos e felizes, seus costumes originais […], multidões quietas e submissas e respeitadoras, portugueses menores mas úteis e amigos […]»
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O impacto e o sentido estão no todo, na legenda principal que dirige a atenção do leitor pela página, participando do mosaico de imagens, estabelecendo a narrativa, assumindo ao longo do seu percurso letterings e funções distintas. É título («10 Milhões!»), é destaque e premissa («de negros sob o domínio português»), é conclusão fatalista («e não ganhamos os jogos olímpicos…»). O negro é reduzido a um corpo, a um recurso colectivo, que pelas suas supostas características se presta ao trabalho, se presta ao esforço, se presta ao desporto, desde que sob a orientação do Português.

Por curiosidade, esta mesma imagem da multidão é usada também no grande álbum de propaganda ao Estado Novo Portugal 1934. Aqui ainda tem mais impacto, ocupa uma grande panorâmica de abrir com mais de um metro.
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O racismo quotidiano evidente, deliberado, era comum nas páginas do Notícias Ilustrado, tanto no modo como se representavam etnias, como no modo como se representava o branco e sobretudo o Português.

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Há o péssimo hábito, quando se fala sobre design de falar das qualidades morais do designer, de associar o bom design à boa vontade – o «good design is goodwill» de Paul Rand. Lê-se sobre as qualidades da personalidade de Sebastião Rodrigues, sobre a generosidade deste ou daquele designer, sobre a sua humildade. Fazem bom kerning e boas acções. Fica-se sem preparação e sem assunto quando o designer é um filho da puta, não na sua vida privada, não no sossego da sua casa, mas quando a sua filha da putice se concretiza através do seu design. Não basta dizer que é só um trabalho formal cuja qualidade pode ser isolada do seu conteúdo. Porque se isso pode ser feito quando as coisas correm mal, quando o designer é mau como as cobras, porque é então o «bom design boa vontade»? Não é possível nem desejável separar o designer maligno da qualidade do seu design. É em grande medida pela qualidade desse design que essas ideias se concretizam, se legitimam e ganham adeptos.

 

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Filed under: Ética, Crítica, Design, História, racismo, , , ,

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