The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Da BD ao design e de volta ao princípio

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O livro da esquerda faz parte da colecção Quadradinho, editada pela Associação do Salão Internacional de BD do Porto (ASIBDP). O design é da duodesign (José Rui Fernandes e  Susana Paiva). É uma citação directa da capa do número 37 da revista de design Emigre, dedicado curiosamente a uma tentativa de colocar o design gráfico mais próximo de um modelo da autoria e da propriedade intelectual do que no da prestação de serviços.

A colecção Quadradinho era uma chancela da revista Quadrado, na altura também editada pela ASIBDP. Entrei em 1990 no curso de Design de Comunicação da então Escola Superior de Belas Artes do Porto (ESBAL). Interessava-me mais a ilustração do que o design. E a ilustração, claro, interessava-me porque podia ser uma aplicação prática – ou seja, paga – da banda desenhada, que eu praticava dia e noite, mas sabia não ter grande saída em Portugal. O design é portanto o desvio de um desvio. Quando entrei, pouco mais sabia do que o nome do curso.

Na Bauhaus, a escola de design original, proibia-se os alunos de usar referências nos primeiros anos do curso. O aluno deveria libertar-se dos seus preconceitos, do peso da história, do arrasto da influência. A minha experiência não foi de todo essa. Aprendíamos sobretudo através do exemplo e da referência. Os professores diziam-nos que, para projectar uma caixa de cereais ou um rótulo de vinho deveríamos ir ver o que era uma caixa de cereais ou um rótulo de vinho. Na Bauhaus, diriam-nos para desenhar o rótulo de vinho como se nunca tivesse havido alguma vez um rótulo de vinho. Era a maneira moderna, mas nós vivíamos o Pós-Moderno. E vivíamo-lo em Portugal, o que só acentuava a coisa. Havia uma consciência permanente de ser impossível fazer qualquer coisa de novo. O que se fazia era contornar o problema, usando as referências e as citações do modo mais criativo possível. O Pós-Moderno era uma desculpa airosa para importar, apropriar, roubar, citar.

Entre o design mais interessante que se fazia no Porto nessa altura estava a revista Quadrado. A segunda série em particular conseguia juntar a estética das Emigre e das Raygun num formato que fazia lembrar a então recente revista de design Eye – que era por sua vez inspirado no formato da segunda série da Typographica, que Herbert Spencer editou entre 1960 e 1967. Ou seja, os designs de uma revista de expatriados holandeses e eslovacos na Costa Oeste dos EUA (a Emigre), de uma revista de música (a Raygun), de duas revistas inglesas sobre design (Eye e Typographica) condensavam-se numa revista portuguesa sobre banda desenhada.

Na altura, a maioria das publicações de banda desenhada eram fanzines puros e duros, em fotocópia e agrafados de lado. A Quadrado parecia mais profissional – e mais fresca do que muito do que se fazia na altura. Espantava ainda mais ser editada por então alunos quase da nossa idade, o José Rui Fernandes, a Susana Paiva e o João Faria.

Foi o primeiro sítio onde publiquei as minhas BDs e mais tarde o segundo sítio onde estagiei como designer, aquele onde aprendi mais. Suponho que trabalhar num sítio onde era comum ter os meus colegas a editar e a escrever crítica acabaria por influenciar o meu trajecto.

 

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Filed under: Apropriação, Banda Desenhada, Crítica, Estágios, genealogias, História, nostalgia, Publicações, Tipografia

2 Responses

  1. marco diz:

    curiosidade: foste publicado como Mário Moura?

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