The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Uma Fina Barra Vertical

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IRL, longe da internet, das bases de dados, da Amazon ou do Abebooks, os livros perdem-se ou encontram-se pela lombada. Ter boa memória para capas não chega ao livreiro ou ao coleccionador compulsivo. Se a capa do livro é o seu poster publicitário, a lombada é o seu número da porta. Porém, é raro o coleccionador comprar um livro por causa do design da lombada.
Aconteceu-me com a segunda edição de Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico, de Orlando Ribeiro, editado pela Sá da Costa. Procurei-a por causa de uma fina linha negra entre o título e o nome do autor – na imagem acima, mostro a 4ª edição, onde ainda aparece a linha, neste caso aberta a branco; não sei onde pára a minha segunda edição, perdida num caixote de mudanças. A imagem embaixo vem do catálogo Sebastião Rodrigues · Designer, editado pela Gulbenkian.
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Andei atrás desta linha por culpa de duas curtas referências que Robin Fior lhe faz nesse catálogo. Numa delas, Fior explica que a «utilização de uma fina barra vertical, na lombada, para articular a relação Título | Autor é directamente importada de Perspectives (como o designer teve todo o gosto em admitir).» Não diz quando ou onde Rodrigues terá feito a tal admissão. O aparte é interessante, dá a entender que alguém terá apontado a importação a Rodrigues. Em design, apontar as influências é algo que se faz com um sorriso conhecedor agarrando o braço de um amigo ou que se rosna baixinho de um rival – um dos meus primeiros ex-patrões quando via novos trabalhos de um sócio de quem se tinha separado em maus termos agarrava nas revistas de design desse ano e procurava até dar com as «inspirações» do ex-colega. Em geral, encontrava. Como é evidente, ele próprio usava as mesmas revistas como inspiração. Portanto, pode bem ter sido o próprio Fior a apontar a importação a Rodrigues. É o género de coisa que se diz meio a sério meio na brincadeira em grupos pequenos de designers, discutindo nas mesmas tertúlias, partilhando as mesmas referências, lendo os mesmos exemplares das mesmas revistas.

No pequeno meio editorial português da década de 1950 onde Rodrigues se movia, uma publicação como a Perspectives USA não passava desapercebida. Foi editada entre 1952 e 56 pelo editor James Laughlin, da New Direction Books, e financiada pela Ford Foundation com o objectivo de mostrar ao mundo que «os Americanos conseguem pensar tão bem como conseguem mascar pastilha elástica». Prometiam uma revista decididamente highbrow – intelectual –, sem anúncios, propaganda ou política. Contudo, como argumenta Greg Barnhisel, o modernismo esteticizado e despolitizado que promovia era em si mesmo um programa político, apresentando-se como «o produto natural de artistas individualistas exercendo em liberdade o seu pensamento numa sociedade livre.» A Perspectives funcionava como uma ofensiva privada dentro do campo de batalha da Guerra da Fria.

A sua direcção artística estava a cargo do norte-americano Alvin Lustig, o designer da New Directions, e contava com a colaboração gráfica dos melhores criadores da época, entre eles Paul Rand, Rudolph De Harak, ou Leo Lionni. A composição do interior era um expoente do modernismo americano, concisa sem ser austera.

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Os cabeçalhos e títulos são talvez o detalhe mais carismático, com a sua fina barra negra a articular o peso da Gill Sans bold com os small-caps e itálicos serifados da Bembo. Note-se que um dos desafios era imprimir a mesma revista em quatro países distintos e três línguas, optando por papéis e mesmo fontes distintas. Mostro aqui a edição inglesa, impressa na reputada Curwen Press.

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A edição americana usava a Franklin Gothic e Linotype Garamond. Para a alemã, impressa em Frankfurt-am-Main por Weisberger, escolheu-se a Poliphilus. A italiana foi impressa em Verona por Madersteig usando a Bembo. A francesa combinava uma antiga expandida anónima com a Elzevir – o próprio Lustig partilhou essa informação no oitavo número da primeira série da Typographica – que também era consumida com avidez no círculo de Rodrigues.
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As capas, dentro de um estilo de abstracção ou figuração geométrica, eram mais variadas, recorrendo a artistas distintos, entre os quais o próprio Lustig e Rand. Foi sobretudo nelas que Sebastião Rodrigues se inspirou para o Almanaque. Aproveitou também a proporção de dois por três, ampliando um pouco formato. Vista de fora a Almanaque parece a edição portuguesa da revista norte-americana.

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O interior parece-se mais com o da brasileira SR. (abreviatura de Senhor) que, para além da coincidência de ter as iniciais do seu designer, partilhava ainda com o Almanaque os colaboradores José Cardoso Pires e o fotógrafo Armando Rosário. O director de arte da Sr. foi Carlos Scliar, coadjuvado por Glauco Rodrigues e Jaguar.¹ É difícil precisar se a parecença entre a Sr. e a Almanaque, revistas que saíram no mesmo ano de 1959, é directa ou reflectia apenas o que estava na moda na época. Em qualquer dos casos, é importante verificar até que ponto a obra de um designer, o modo como é construída, os seus ingredientes, se inscreve em todo o tipo de circulações – revistas, tertúlias, exposições, viagens –, ajudando a desfazer o mito da singularidade original de qualquer designer, mesmo os melhores.

De entre o círculo de Sebastião Rodrigues, Fior foi dos poucos a inventariar-lhe em público as influências, evitando também o tom deslumbrado com que se costuma escrever sobre o designer. Mesmo assim, sentiu-se na obrigação de se justificar perante o mito, concluindo, no texto Glifo, signo, assinatura, design, que lhe dedicou no catálogo Sebastião Rodrigues · Designer, que apontar «as origens ou desvendar alguns dos segredos do trabalho de Sebastião Rodrigues não prejudica o mistério e a surpresa inerentes aos seus melhores trabalhos.» Uma boa análise não mata a galinha dos ovos de ouro.

Fior foi o designer do catálogoBaixando os olhos do seu texto de para o pé da página, encontramos a segunda referência: um número de página (em numeração antiga, não alinhada), separado do título do texto (composto numa não-serifada, talvez uma Gill Sans) por uma fina barra vertical.

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1. Ana Sofia Seixas da Silva, Senhor e Almanaque: Duas revistas em diálogo gráfico entre Brasil e Portugal nos anos 1950 e 1960. Dissertação de Mestrado, Esad Matosinhos, 2018.

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Filed under: Apropriação, Autoria, Crítica, Design, genealogias, História, Publicações, Sebastião Rodrigues, Tipografia

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