The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Fora deste Mundo

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Nunca consegui comprar a Periférica nos quatro anos que durou – entre 2002 e 2006. A tentação era grande. Diziam muito bem dela nos jornais. Ainda por cima era editada perto de Vila Real. Várias as vezes a segurei e todas a deixei ficar na estante da livraria. Era demasiado feia. Não me considero um designer estrito daqueles que sentem uma má fonte ou entrelinha nas vísceras mas a Periférica ia além dos meus limites.

Um vago instinto levou-me a procurar números antigos na internet. Comprei alguns num site espanhol. Outros, a uma alfarrabista em São Mamede de Ribatua. Quando os recebi, a má impressão inicial confirmou-se. Tinha todos os tiques de uma revista dos primórdios do desktop publishing: fontes de sistema ou pior, abusos kitsch de photoshop, anúncios de discoteca locais feitos em dois minutos. Lembrava-me trabalhos de alunos quando começam a paginar: não há um plano consistente para além de um número limitado de fontes e uma composição de página repetitiva. Desenrascam-se soluções para cada problema à medida que aparecem, e os desenrascanços por sua vez iam sendo resolvidos com desenrascanços posteriores até uma pessoa só pedir aos céus para alguém pôr fim ao sofrimento daquela pobre coisa.

Custa-me escrever isto, tal como me custa dizê-lo a um aluno. Preferia não o fazer. Se o faço é por uma razão: porque a Periférica me levou a especular que os designers gráficos, mesmo os mais articulados, não têm muita experiência a falar sobre o feio.

Tende-se a tratar como feio aquilo que não se conforma – ou que deforma – as regras formais do design. Se tem bom kerning, se foi feito ou não por um designer, se usa Comic Sans, etc. Mas só muito raramente o discurso sobre o feio ultrapassa o plano formal. Não se tenta ver o feio nos seus próprios termos – e há tipos de feio que são como aqueles aviões que se furtam aos radares, não é possível registá-los. Só os podemos ver presencialmente. É um tipo de feio que não aparece na fotografia. Tira-se uma fotografia em Trás-os-Montes e enquadra-se cuidadosamente para que se veja o palheiro e a serra mas não o prédio. A igreja mas não a discoteca. O pelourinho mas não o Centro de Emprego ou delegação do SEF. [1] É um hábito antigo – que não se limita à fotografia. J. Rentes de Carvalho quando escreveu o seu ensaio Trás-os-Montes, o Nordeste também deixou de fora deliberadamente as cidades.

Quando o filme Trás-os-Montes, de Margarida Cordeiro e António Reis (1976) estreou nas cidades de Bragança e em Miranda do Douro foi muito mal recebido. João Bénard da Costa que esteve presente nas sessões, disse que em Bragança «o acolhimento foi relativamente civilizado, mas extremamente frio. Era óbvio que as pessoas não tinham gostado nada, o que deixou o António muito triste.» Em Miranda do Douro, «começaram a ver o filme e a achar‑se insultadas. Ou seja, queriam ver Trás‑os‑Montes como naquele momento, em 1976, começava a ser. “Onde é que estão as nossas estradas? Onde é que estão os edifícios modernos? Onde é que estão os campos bem tratados? Onde é que está a modernidade?” – ou o que eles entendiam por modernidade.» Houve artigos na imprensa local a protestar contra o filme e a pôr em causa os apoios que recebeu. Bénard da Costa respondeu com um artigo onde os comparava a censores Búlgaros – chamou-lhes os Búlgaros de Bragança –, acusando-os de «uma visão das coisas num único sentido.» Lamentava por fim «uma pequena burguesia completamente fora deste mundo, que aspirava a ser uma burguesia urbana e que reagiu com violência contra o filme.»[2]

A história dos Transmontanos das cidades que queriam censurar a pobreza da sua região ficou colada ao filme. Porém, quantos são os filmes em Portugal que mostram Trás-os-Montes, ou até a província em geral, através das suas cidades? Não sou exigente ao ponto de pedir filmes onde a cidade é mais que um cenário – pode-se incluir talvez o Peso da Régua onde Manoel de Oliveira filmou O Estranho Caso de Angélica (2011). Um dos raros casos onde se pode ver uma representação mais ou menos realista da vida urbana[3] numa pequena cidade do interior é n’O Capacete Dourado, de Jorge Cramez (2007). O mais comum é eliminar-se quase por completo os prédios, as cidades e as auto-estradas do enquadramento. Por vezes, só aparecem como um dispositivo cénico de contraste – como em Rio Corgo, de Maya Kosa e Sérgio da Costa (2015), filmado quase inteiramente numa aldeia junto aos pilares do gigantesco viaduto de Parada de Cunhos que só aparece no filme por momentos.

Quando as pessoas se queixam da desertificação do interior, falam do fecho ou inexistência de serviços, de infraestruturas, mas há também uma miséria simbólica, uma pobreza que opera no plano da representação. Não é possível esperar que se viva em cidades invisíveis, que desaparecem da fotografia, do cinema, da literatura, só sobrando um centro histórico e uns arredores que «ainda mantêm a sua autenticidade», o seu palheiro, as suas paredes de pedra.

Bénard da Costa com os seus insultos contra uma pequena burguesia «fora deste mundo» estava a descrevê-los literalmente na invisibilidade a que são votados. E, claro está, a história só tende a ser contada pelo lado dominante. Um filme como Trás-os-Montes pode bem ser criticado, não por evitar a modernidade, mas por não filmar um tipo menos romanceado de atraso e de pobreza. Da minha adolescência em Trás-os-Montes, nem dez anos depois do filme, a pobreza e a violência que me lembro eram urbanas. Gente quase da minha idade que se espatifava em carripanas por claustrofobia de Sábado à noite, que se atirava de pontes, que morria de overdose num sítio cada vez mais moderno, feio e invisível. É um tipo de miséria que só raramente se documenta ou ficciona.

Desconfio que a Periférica me é feia porque lembra esse terrível território obliterado. Lembra o mau gosto esforçado e bem intencionado com que são feitas as publicações camarárias ou das juntas de freguesia. Lembra a pouca probabilidade que têm de ser vistas à distância. A revista teve sobretudo o mérito de se inscrever em circuitos nacionais e até internacionais de colaboração. Em termos de conteúdo, não era de todo uma revista de aldeia – se esquecermos os anúncios a empresas locais.

Por ironia, Rentes de Carvalho menciona a revista no seu ensaio, talvez porque foi feita numa aldeia (gaba-lhe o grafismo), mas a Periférica foi como um bom festival de Verão organizado localmente ou um bar do interior onde a música ao vivo é firmemente comissariada –há muitos exemplos possíveis. Muitas vezes praticam a excelência em condições impossíveis mas não são excepcionais. A história do interior está cheia de iniciativas assim. Tendem a ser louvadas como milagres, raios de luz, mas não se consegue realmente apreciá-las por aquilo que são, gente a tentar ter uma vida urbana onde ela só é tolerada.

[1] Álvaro Domingues, por exemplo, faz o oposto escolhendo precisamente o enquadramento em que duas paisagens incompatíveis se encontram. Ver Trás-os-Montes presencialmente é, essencialmente, isto.

[2]  Estas citações vêm todas daqui.

[3] Não é uma redundância. Também existe uma vida rural nas pequenas cidades do interior.

 

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Publicações, , , ,

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