The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

25 horas mínimo por semana

Vem aí uma exposição no Porto, no espaço Rampa do qual faço parte, dedicada às Guerrilla Girls. Perguntaram-me se não queria fazer qualquer coisa na programação paralela e acho que vou aproveitar para tratar de um tema difícil que é o das mulheres na história do design.

Investigar história tende a ser tido como uma actividade intelectual que está desligada na prática. Pela minha experiência, é algo físico, que se faz com o corpo, que nos curva as costas e estraga a vista. Precisa do seu tempo, precisa dos seus recursos. Tenho-me dedicado mais à história em parte porque me tornei pai. A minha esposa tem um emprego das nove às sete. A universidade deixa-me tempo para trabalhar em casa e assim, cabem-me os deveres de ir buscar e levar a minha filha à creche, de lhe preparar, dar o jantar e deitar quando estou sozinho. Mesmo quando está na creche, se a noite corre bem, e tenho ajuda, ocupa-me um mínimo de cinco horas por dia. É um mínimo (nunca atingido, sempre ultrapassado, meramente indicativo) de 25 horas nos dias úteis, bastante mais ao fim de semana.

Já não tenho a disponibilidade que tinha para ir às exposições ou às conversas. O que me é mais fácil consumir são os formatos portáteis da história: o livro, a revista, aquilo a que posso assistir ou ler no computador. Assim, a história tornou-se algo próximo daquilo que eu fazia, da crítica, e que posso conciliar com ser pai. Gosto de o fazer mas tenho consciência do que me permite fazê-lo em comparação com outros formatos que me são agora mais difíceis. Comissario exposições e é bem mais difícil de conciliar com os meus deveres de pai.

O que eu faço agora é o que ainda se espera que uma mulher faça. Um colega meu disse numa aula que as mulheres até tinham jeito para o design mas depois tinham filhos e perdiam-se. A maioria da turma era constituída por mulheres. Moveram-lhe um processo disciplinar. Ele alegou que só estava a dizer-lhes como as coisas eram.

Das monografias sobre designers publicadas em Portugal só há uma dedicada a uma designer, Ana Salazar. Com boa vontade, podíamos incluir o catálogo que se fez sobre Maria Keil. Percebe-se a dificuldade. Passei os últimos meses a ler história do design português e mal aparecem mulheres. São poucas e o seu trabalho tende a desaparecer. Muitas trabalharam em firmas importantes sobre as quais, no final, o que sobrou é uma monografia sobre o homem que a dirigia.

Uma amiga contou-me de certa instituição onde o director era um homem mas todos as direcções intermédias eram mulheres. Disse-me que só à primeira vista era uma organização igualitária. Achava que as mulheres cumpriam a função de se poder berrar com elas mais facilmente. E, nunca tinha pensado nisso, mas é verdade, berrar com mulheres é bastante mais comum. Lembro-me da história de uma antiga aluna que foi obrigada a trabalhar com um sujeito intratável que lhe berrava e destratava constantemente. Teve a ideia brilhante de começar a levar o pai para o trabalho, e só assim as coisas melhoraram. É o tipo de pressão constante que uma mulher tem que suportar e é invisível à maioria dos homens.

Um dos piores argumentos que se vai fazendo para adiar a tentativa de fazer uma história do design no feminino é que isso seria fazer do género uma pré-seleção de qualidade. É um argumento estúpido porque o modo como a nossa sociedade se organiza já faz do género um critério de selecção. A tirada do meu colega sobre o jeitinho que se perde é exemplar. Podia também lembrar aqui a clássica citação de Paul Rand, que achava que o design só seria levado a sério quando fosse menos efeminado. Para que o género não seja um pré-requisito de qualidade seriam precisas medidas que dessem realmente a oportunidades a mulheres. Assim, sou a favor de quotas, sou a favor de licenças alargadas de parentalidade. Sou a favor daqueles concursos de design direccionados a jovens, que dão dois anos a mais na idade por cada filho.

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Filed under: Crítica

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