The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Edição Experimental

Terminou na semana passada a exposição dedicada à auto-edição que comissariei em Serralves com o Ricardo Nicolau. O objectivo inicial era mostrar objectos e projectos dos últimos vinte anos no Porto. Eu lembrava-me de muita dessa cena. Fiz parte dela, desenhando e pouco depois escrevendo. Ao entrevistar os protagonistas, folheando espólios, pasmou-me a fragilidade desse passado recente. Muitos projectos tinham desaparecido quando os seus autores se foram embora, mudaram de emprego, de área. Ou simplesmente perderam o interesse. Fui a umas tantas casas onde me tiraram de um armário de arrumos caixas de fanzines e revistas. As memórias eram enevoadas. Iam-se avivando na conversa.

Certa vez, cruzei-me na Letra Livre em Lisboa com o velho editor Vitor Silva Tavares da &etc. Não o conhecia em pessoa. Só o tinha lido e sabia quem era. Falava com o livreiro, em voz alta olhando de vez em quando para mim, como para me tornar no seu público. O que disse, já o tinha lido em em entrevistas que deu. Falava de edição, falou da origem do nome da Assírio & Alvim, contou anedotas que lhe tinham sucedido a ele ou a outros. Era uma história oral que gostava e estava habituado a contar, polida pelo uso. Também já a ouvi e li a mais gente. Pessoas que viveram nessa altura, ou fãs que se juntaram depois. Essa história da edição independente entre o final do Estado Novo e a década de oitenta é interessante, é sumarenta, tem muito de auto-mitificação – o que não a desqualifica, só é preciso que haja investigadores que não se limitem a aceitá-la nos seus próprios termos. É um meio cujas histórias são como aqueles filmes de onde se sai a andar e a falar um bocadinho como o herói.

Por comparação, a edição experimental dos últimos vinte anos é bem menos faladora, pelo menos no sentido de se auto-mitificar. Tem um discurso e objectivos bastante mais teóricos. Não descarta com isso uma póetica ou uma vertente literária forte. São editoras que conheço bem porque muitas pertencem a amigos. O melhor exemplo é A Dois Dias, de Sofia Gonçalves e Rui Paiva, que tem um design impecável, um espécie de modernismo experimental, lúdico e conciso, na senda da Dot Dot Dot ou de Stefan Themerson, de quem editaram A vida do Cardeal Pölätüo, ou dos Oulipo. Mantêm relações de filiação com a velha edição independente, reeditando por exemplo o Para Já Para Já, de Vítor Silva Tavares.

Já era tempo de se começar a fazer a história desta nova edição experimental. Há teses que trabalharam o assunto em tempo real, enquanto acontecia, que podem ajudar. É um meio que passou em larga medida desapercebido à crítica e ao comentário. No ano passado, o Prémio do Design de Livro da Direcção Geral do Livro deu o galardão máximo a Marco Ballesteros, ficando como uma das menções honrosas Márcia Novais e Ricardo Nicolau, todos eles movimentando-se num universo estético e editorial semelhante. Não houve grandes comentários que me lembre. Não houve qualquer tentativa de fazer uma apreciação crítica desta tendência – uma negligência que não é de agora.

Com tempo, adorava dedicar-me a isso, entrevistar os intervenientes, fazer uma exposição retrospectiva. Convocar protagonistas como Miguel Wandschneider, que durante o seu período na Culturgest estava particularmente atento às tendências de edição experimental, trazendo figuras como Stuart Bailey ou os Roma Publications. As suas iniciativas foram cruciais para estimular toda uma geração de designers que neste momento fazem do melhor e mais actual design para instituições culturais e não só.

Este texto é só um esquisso apressado que não pretende ser exaustivo. Há muito mais gente a fazer edição e design dentro deste movimento/estilo: Ana Teresa AscensãoIsabel CarvalhoMaria João Macedo, em parte os Arara, Pedro Nora, os Barbara Says, etc.

Praticamente não existe crítica de design neste país, mas isso não é desculpa para ter deixado passar um movimento variado mas bastante consistente apesar de discordâncias. A crítica de arte e literária também teria as suas responsabilidades. Penso que a culpa é do seu conservadorismo operativo – nunca arrisca, é incapaz de identificar uma tendência que já não venha identificada, que já não venha previamente digerida por um bom assessor de imprensa.

Penso que haverá aqui alguma má vontade geracional. Já ouvi muitos designers mais velhos queixar-se e mal dizer a geração mais nova. Que é feio, que nem é design, que é arte, etc. São maus argumentos, muitas vezes bastante ofensivos, e que só sublinham que estes novos designers estão de pedra e cal dentro do universo cobiçado do design ligado às instituições culturais do Estado.

É constrangedor ver gente a gabar calhamaços editados por uma instituição cultural de segunda só porque o design é duma luminária qualquer que invoca os valores clássicos da boa tipografia e o conhecimento de gráfica enquanto produz xaropadas que parecem caixas de bombons. A sério que já não tenho paciência para os gajos que me vêm dizer que esse tipo de treta é que é design.

É design mas é mau design. Pode estar fantasticamente bem impresso, ter o kerning cuidado, mas o que adianta ver com toda a nitidez um monte de bosta pretensiosa? Não mau design só no sentido estético mas no de ser design que, para prolongar o seu prazo de validade, não sabe conviver com outros modos de fazer design.

Anúncios

Filed under: Crítica

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: